| "A
violência institucional é uma política
que não depende dos governos", diz
Paulo Arantes
*Brasil
de Fato,* por
jpereira<http://www.brasildefato.com.br/v01/author/jpereira>—
Última
modificação 17/12/2007 19:22
Para
o filósofo, o Estado de Direito encontra-se
à deriva no mundo inteiro:
"ainda é norma incontornável,
porém cada vez mais inefetiva"
"Tortura-se
desde sempre em qualquer cadeia pública
brasileira. O escândalo
dos anos de chumbo é que esta prática
se estendeu aos brancos de classe
média politicamente radicalizados. Quer
dizer, o que havia de chocante era a
inédita ampliação das classes
torturáveis brasileiras, até então
seletivamente restritas aos pobres, negros e
presos". A opinião é de Paulo
Arantes em entrevista especial, por e-mail,
*à *IHU
On-Line<http://www.unisinos.br/ihu/>
.
Segundo
ele, "a violência institucional ilegal
é exercida hoje como uma
política sistêmica". Tanto
é assim que, constata o filósofo,
que "os
governos não fazem mais a diferença.
Foi assim com o FHC, e continua agora
com o Lula, ambos equipados não obstante
com os melhores secretários de
direitos humanos disponíveis no mercado
de ativistas bem intencionados".
*Paulo
Arantes* é graduado em Filosofia pela
Universidade de São Paulo
(USP), doutor pela Universidade Paris X, Nanterre,
com a tese Hegel: l'ordre
du Temps (Paris: Harmattan, 2000), também
disponível em português: Hegel:
a
ordem do tempo (2. ed. São Paulo: Hucitec,
2000). Arantes é docente emérito
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, departamento de
Filosofia da USP. Escreveu inúmeras obras,
das quais destacamos Um
departamento francês de ultramar (São
Paulo: Paz e Terra, 1994);
Ressentimento da dialética (São
Paulo: Paz e Terra, 1996); e Extinção
(São
Paulo: Boitempo, 2007).
*Considerando
os últimos acontecimentos no Brasil,
como a prisão da menor L.
em uma cela masculina, o ataque a mendigos e
a morte de crianças indígenas
por desnutrição, como o senhor
avalia o cumprimento dos direitos humanos em
nosso país? Concorda com a declaração
da ONU de que no Brasil podem estar
havendo atos de tortura?*
*Paulo
Arantes -* As barbaridades que você acaba
de evocar dentre os
descalabros mais recentes em foco na mídia
– e bastaria apenas uma, como
disse certa vez Borges , interrompendo um relato
de atrocidades perpetradas
pela ditadura argentina – dão bem
uma idéia do novo ciclo histórico
de
violência que paradoxalmente se abateu
sobre o Brasil desde o fim do regime
militar. Registro de violações
como o da ONU sempre ajudam, mas acabam
contribuindo para a anestesia geral na medida
em que tudo acaba virando uma
questão de indicadores mais ou menos
desalentadores.
Comecemos
pelo básico: tortura-se desde sempre
em qualquer cadeia pública
brasileira. O escândalo dos anos de chumbo
é que esta prática se estendeu
aos brancos de classe média politicamente
radicalizados. Quer dizer, o que
havia de chocante era a inédita ampliação
das classes torturáveis
brasileiras, até então seletivamente
restritas aos pobres, negros e presos.
Não deixa de ser inquietante reparar
que é precisamente esta a circunstância
histórica que viu nascer o que viria
depois a se institucionalizar como uma
política de direitos humanos e igualmente
não por acaso desde então acoplada
à eterna promessa de uma "verdadeira"
política de segurança pública,
em
contraposição à usual,
baseada na escalada punitiva, desde o enfrentamento
tipo "guerra urbana" até o
endurecimento contínuo da execução
penal.
Voltando ao básico.
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