| A
privatização da CESP será
um grave erro
Hélvio
Rech
Tínhamos, em São Paulo, três
grandes estatais do setor elétrico: a
CESP, a Eletropaulo e a CPFL. A CESP operava
um extenso sistema de transmissão e algumas
redes de distribuição no interior
do estado e, ao mesmo tempo, era a segunda maior
geradora do Brasil.
Incompreensivelmente,
em vez de saneá-las administrativa e
financeiramente, a administração
do Governador Mário Covas preferiu privatizá-las
quase que por completo, sobrando uma parte da
CESP, para a qual tinha sido transferido o endividamento
das demais.
Entretanto,
o que sobrou da CESP ainda tem o controle de
grandes hidrelétricas, tais como Ilha
Solteira; Três Irmãos; Jupiá;
Paraibuna; Jaguarí e outras que totalizam
mais de 7.000 MW de capacidade instalada.
Os consultores
contratados pelo governo paulista avaliaram
a CESP em R$ 6,6 bilhões, valor muito
baixo, porque, desde que as bacias hidrológicas
sejam devidamente protegidas e preservadas,
as hidrelétricas podem gerar energia
indefinidamente, portanto não se pode
estimar seu valor com base em fluxos de caixa
descontados, limitados pelo prazo de depreciação
contábil do investimento, a partir do
qual o custo de geração reduz-se
ao custo de manutenção, somado
às despesas salariais, encargos trabalhistas
e seguros, custo esse que, no caso das hidrelétricas
da CESP, está em torno de R$ 8/MWh. Como,
nos leilões promovidos pelo governo,
os preços têm superado R$ 100/MWh,
é evidente que o potencial lucrativo
da CESP permitirá que seu passivo financeiro
seja liquidado em menos de 3 anos. Daí
em diante a empresa se transformará numa
autêntica "mina de dinheiro",
e a parte de seus lucros que corresponde à
participação do estado no capital
da empresa pertence ao público, que financiou
a sua construção, com os pesados
impostos e taxas que pagou.
Quem são
os interessados na privatização
da CESP?
De um lado estão
alguns tecno-burocratas dogmáticos, com
clara motivação ideológica,
que defendem cegamente a tese de que "todas
as atividades produtivas devem ser privatizadas,
cabendo ao Estado apenas controlá-las".
Esses burocratas esquecem-se de que o sistema
elétrico é uma infra-estrutura
de serviço público vital para
todas as demais atividades da economia, em particular
as atividades industriais e comerciais. É
uma temeridade entregar um serviço dessa
importância ao controle de grupos cuja
prioridade absoluta é maximizar seus
lucros.
De outro lado
estão os agentes intermediários
não produtivos que surgiram à
sombra do chamado mercado spot de eletricidade.
Esses intermediários
gostam de se intitular "especialistas com
mais de 30 anos de experiência no setor
elétrico", mas nada acrescentam
à estrutura física do sistema,
muito menos à sua eficiência operacional.
Na verdade, eles talvez até confundam
impedância com resistência, mas,
aboletados em obscuros órgãos
de classe de "produtores... não-sei-de-que"
debateram, à base de argumentos totalmente
idiotas, que a salvação do mundo
está na privatização do
que sobrou da CESP.
A explicação
que está por trás desse berreiro
é elementar, meu caro Watson: são
eles que se apropriam de boa parte dos lucros
resultantes da diferença entre os altos
custos de geração das novas usinas
(especialmente das termelétricas), e
os baixíssimos custos das velhas hidrelétricas,
cujos ativos contábeis estão quase
integralmente depreciados.
Hélvio Rech , mestre e doutorando em
energia USP. É especialista em regulação
de serviços públicos concedidos
(FIPE-USP/Unicamp/EFEI). Foi diretor da APA
das Ilhas e Várzeas do rio Paraná
- IBAMA. E.mail: hrech@usp.br
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