| Cartéis
vão se apropriar da geração
de baixo custo da CESP
Joaquim
Francisco de Carvalho
Março
de 2008
O
moderno sistema elétrico de São
Paulo começou a ser estruturado em 1951,
quando o então recém-criado DAEE
(Departamento de Águas e Energia Elétrica)
elaborou o Plano de Eletrificação
e o Brasil iniciava a transição
de país agrícola para país
industrial. São Paulo foi a "locomotiva"
daquela transição, que acabou
colocando a economia brasileira entre as maiores
do mundo. Até então, o sistema
elétrico era controlado pela Light e
pela Bond & Share, detentoras de um monopólio
que lhes assegurava grandes lucros, em detrimento
da qualidade dos serviços. Os apagões
eram freqüentes, porque, para aqueles grupos,
não interessava investir em projetos
de aperfeiçoamento e expansão,
que requerem muito capital, com largo prazo
de retorno.
Assim,
não é novidade o que atualmente
se passa em relação à Duke
e à AES, que compraram, na bacia das
almas, algumas das mais lucrativas empresas
do sistema elétrico paulista e agora
se recusam a reinvestir parte de seus lucros
em projetos de expansão.
O caminho rumo às privatizações
em São Paulo
Voltemos à década de 1950. Quando
ficou evidente que grupos privados, sobretudo
estrangeiros, preferiam remeter lucros a investir
em projetos de longo prazo de retorno, alguns
grandes vultos do empresariado e da engenharia
paulista perceberam que só o Estado poderia
expandir o sistema elétrico e prepará-lo
para atender à crescente demanda da indústria
e das prefeituras do interior e convenceram
o governo a tomar a iniciativa de expandir o
sistema. Surgiram assim as estatais Uselpa,
Cherp, Celusa, Comepa e Belsa, posteriormente
incorporadas à Cesp, que foi criada em
1966.
Ao
compararmos o espírito pioneiro e patriótico
daqueles engenheiros e empresários com
o dos "estadistas-pigmeus", que retalharam
o sistema paulista e o privatizaram em grande
parte, por quantias insuficientes para construir
sequer uma das grandes hidrelétricas
da CESP, temos a medida da decadência
em que estamos mergulhados...
Há
cerca de dois anos, um desses pigmeus, o então
governador Cláudio Lembo, acolitado por
outro pigmeu, o seu secretário de Energia
– que, aliás, vinha de governos
anteriores e, curiosamente, continua na administração
Serra, em outra pasta –, cometeu o desatino
de privatizar a CTEEP, acarretando grandes prejuízos
para São Paulo, quer sob o aspecto financeiro,
quer sob o ponto de vista estratégico.
De fato, em 2005, o lucro líquido da
CTEEP foi de R$ 468 milhões e em 2004
de R$ 349 milhões. Portanto, a empresa
foi vendida por um valor inferior à soma
dos lucros que ela obteria em apenas dois anos
de operação.
Felizmente,
no vizinho estado de Minas Gerais, o atual governador
tem suficiente visão de estadista para
impedir a privatização da CEMIG,
como, de resto, tinha feito o ex-governador
Itamar Franco, ao resistir à forte pressão
do governo federal (em particular do BNDES)
para entregar aquela empresa. É bom que
os eleitores do partido político dos
governadores José Serra e Aécio
Neves tomem nota disso para, no momento da escolha
de seu candidato para as próximas eleições
presidenciais, ficarem cientes de que, mesmo
que prometa o contrário, o senhor Serra
não resistirá às pressões
para acabar de entregar a Petrobrás (e
talvez até o Banco do Brasil) à
exploração de grupos estrangeiros,
empobrecendo ainda mais o já miserável
povo brasileiro.
Privatização no Brasil: retumbante
fracasso
Na escala do Brasil, o processo de desestruturação
e privatização do sistema elétrico
começou por volta de 1985, quando as
autoridades monetárias, seguindo diretrizes
do FMI, resolveram impedir que o BNDES concedesse
financiamentos às estatais para os projetos
de expansão do sistema elétrico.
Posteriormente,
na administração do presidente
Fernando Henrique Cardoso (um pseudo-estadista
igualmente pigmeu, porém pretensioso),
as estatais ficaram impedidas de investir até
seus próprios recursos e as dificuldades
assim criadas foram usadas como argumento para
onerosas campanhas publicitárias pagas
pelo governo, destinadas a convencer a sociedade
de que o Estado não dispunha de recursos
para expandir o sistema elétrico, papel
que caberia à iniciativa privada. Prometia-se
que, no ambiente competitivo do mercado desregulamentado,
as tarifas ficariam mais baratas e dizia-se
que, libertando-se da responsabilidade de administrar
as estatais, o Estado poderia dedicar-se mais
aos chamados programas sociais (habitação
popular, ensino básico, saúde
etc.). E alegava-se que, com a renda das privatizações,
o governo liquidaria a dívida pública.
Os
fatos desmentiram esses argumentos e promessas:
os novos donos das antigas estatais não
se interessaram por expandir o sistema, preferindo
reduzir investimentos e aumentar tarifas para
remeter máximos lucros ao exterior, de
modo que a taxa de expansão do sistema
acabou ficando inferior à taxa de crescimento
do consumo.
Apesar
das promessas de investimentos privados, as
expansões da capacidade geradora continuaram
a ser bancadas preponderantemente pelo Estado,
mais precisamente pela Petrobrás no tocante
às termelétricas e mediante generosos
financiamentos do BNDES, para as novas hidrelétricas.
Quanto
às tarifas, que eram acessíveis
até para as populações
de baixa renda, foram bruscamente elevadas,
situando-se hoje entre as mais caras do mundo.
De fato, segundo a AIE, em 2007, a tarifa média
espanhola equivalia a US$ 118/MWh; a francesa
a US$ 90/MWh; e a norte americana era de US$
92/MWh. Pelo câmbio do ano, a tarifa média
brasileira equivalia a US$ 147/MWh.
No
tocante ao argumento de que as finanças
públicas seriam saneadas com a receita
das privatizações, o fracasso
foi ainda maior, pois a dívida pública
multiplicou-se por dez e as remessas de lucros
(em grande parte de empresas de eletricidade)
escalaram de US$ 750 milhões em 1994
para cerca de US$ 20 bilhões por ano
em 2007. Aliás, segundo o Banco Central,
as remessas de lucros e dividendos somaram,
em janeiro deste ano, US$ 3,025 bilhões,
de modo que se pode prever um montante próximo
de US$ 30 bilhões para o ano inteiro.
Conclui-se,
portanto, que fracassou o modelo de sistema
elétrico desregulamentado, financeirizado
e entregue às forças do mercado.
Esse fracasso está provocando deficiências
no abastecimento de eletricidade, que poderão
comprometer o desenvolvimento econômico
e social. Insistir com esse modelo seria uma
irresponsabilidade perante os consumidores brasileiros,
particularmente os do setor industrial, que
para continuar produzindo precisam de eletricidade
fornecida regularmente e a preços acessíveis.
Evidentemente,
de nada adiantaria "remendar" o modelo
fracassado, numa tentativa de preservar, ainda
que em parte, a financeirização
do setor, em beneficio dos agentes intermediários
não produtivos que surgiram à
sombra do chamado mercado spot de eletricidade.
Esses intermediários - sem nada acrescentar
à estrutura física do sistema,
muito menos a sua eficiência operacional
- apropriam-se de boa parte dos lucros resultantes
da diferença entre os altos custos de
geração das novas usinas (especialmente
das termelétricas) e os baixíssimos
custos das velhas hidrelétricas, cujos
ativos contábeis estão quase integralmente
depreciados.
O
sistema elétrico brasileiro é
muito peculiar, quanto às fontes primárias.
Cerca de 85% da eletricidade brasileira são
gerados em usinas hidrelétricas, portanto
de forma bem mais econômica e menos agressiva
ao meio ambiente do que as alternativas disponíveis.
Em países onde prepondera a geração
hidrelétrica, como a Noruega e o Canadá,
preservou-se a estrutura patrimonial do sistema,
que - mesmo com a introdução de
mecanismos destinados a criar mercados competitivos
para a comercialização da eletricidade
- permaneceu sob controle público, em
âmbito nacional, provincial ou municipal.
Até nos Estados Unidos as principais
hidrelétricas são controladas
por entidades de direito público, como
a Tenesee Valley Authority, a Boneville Power
Administration, o Bureau of Reclamations e o
US Army Engineering Corps. No Brasil, entretanto,
governantes levianos e sem visão estratégica
entregaram a grupos estrangeiros o controle
de estatais que operam grandes usinas hidrelétricas.
Hoje, as principais distribuidoras brasileiras
estão privatizadas. Cerca de 25% das
geradoras também já o estão
e remetem grandes lucros ao exterior.
CESP
é a sobra de São Paulo a ser entregue
ao setor privado
Em
São Paulo, havia três grandes estatais
do setor elétrico. A saber, a Eletropaulo,
a CPFL e a CESP, sendo que esta operava um extenso
sistema de transmissão e algumas redes
de distribuição no interior do
estado, além de ser a segunda maior geradora
do Brasil. Lamentavelmente, em vez de saneá-las
administrativa e financeiramente, o governo
da época, com pouca visão estratégica
e muita ligeirice no trato do patrimônio
público, preferiu privatizá-las
quase que por completo, sobrando apenas uma
parte da CESP, para a qual foi transferido o
endividamento das demais e que, por isso, não
interessava aos chamados "especialistas
do mercado".
Ocorre
que o que sobrou da CESP detém as hidrelétricas
de Ilha Solteira (3.444MW); Três Irmãos
(808 MW); Jupiá (1.552 MW); Porto Primavera
(1.540 MW); Paraibuna (84 MW); e Jaguarí
(28 MW), totalizando 7.456 MW e - até
por sua situação estratégica
- apresenta agora excelentes perspectivas de
cobrir em poucos anos o seu passivo financeiro,
para se transformar na "jóia da
coroa" do sistema elétrico brasileiro.
Se esse patrimônio for transferido ao
controle de grupos privados, estará aberto
o caminho para a formação de cartéis
que dominarão o sistema elétrico
de ponta a ponta, da geração à
distribuição, passando pela transmissão,
isto é, pela CTEEP, que já foi
entregue. Isto exporá o povo de São
Paulo a draconianos aumentos tarifários
e a cortes de eletricidade em suas casas, escolas,
hospitais etc., ao sabor de decisões
tomadas por grupos cuja prioridade absoluta
é a de remeter máximos lucros
para seus controladores, no exterior.
No
que diz respeito ao valor de R$ 6,6 bilhões
atribuído à CESP pelos consultores
contratados pelo governo, cumpre assinalar que,
desde que a integridade das bacias hidrográficas
seja convenientemente preservada, as hidrelétricas
podem gerar energia por séculos a fio.
Portanto, não se pode estimar seu valor
com base em fluxos de caixa descontados, limitados
pelo prazo de depreciação contábil
do investimento, a partir do qual o custo de
geração reduz-se ao custo de manutenção,
somado às despesas salariais, encargos
trabalhistas e seguros; a não ser que
os possíveis compradores assumam contratualmente
o compromisso irrevogável de restituir
ao Estado todos os ativos da empresa, ao cabo
do referido prazo.
Graças
à avançada depreciação
contábil, o custo médio de geração
das hidrelétricas da CESP já caiu
para apenas cerca de R$ 8/MWh. Nos leilões
promovidos pelo governo, os preços já
tocam a casa dos R$ 100/MWh, portanto é
evidente que o potencial lucrativo da CESP permite
que se a classifique como uma autêntica
cash cow, não havendo explicação
confessável para a decisão do
governo de entregá-la à exploração
privada.
Operar o sistema elétrico é uma
função pública
Afinal, o que leva o governador Serra à
posição dogmaticamente maniqueísta
e ideológica de colocar as chamadas "atividades
produtivas" no setor privado e as "atividades
de controle" no setor público? Seria
apenas provincianismo ou seria miopia estratégica
e falta de visão de estadista? Se for
isto, o governador deveria tomar algumas aulas
particulares com o governador do vizinho estado
de Minas Gerais, que respeita os interesses
de seus eleitores e tem consciência da
importância de se preservar o patrimônio
público, resistindo a fortíssimas
pressões exercidas por poderosos lobistas,
interessados em se apropriar da Cemig.
Todos
estamos de acordo em que os estabelecimentos
industriais devem ser controlados e explorados
pelo setor privado. Mas não é
aceitável o parvo maniqueísmo
dogmático de que as "atividades
produtivas" têm que ser privadas
e as "atividades de controle" devem
ser estatais. Cabe perguntar se alguns serviços
públicos essenciais, como o ensino básico,
a saúde pública, a habitação
popular e a segurança pública,
são atividades "produtivas"
ou "de controle". Então, existem
ou não existem hospitais, empresas construtoras
de casas populares, firmas de segurança
e colégios particulares?
O
fato é que, sem energia elétrica
– ou com as tarifas exorbitantes atualmente
cobradas no Brasil –, estabelecimentos
industriais (que evidentemente exercem atividades
produtivas) não podem produzir; como
tem acontecido nas últimas semanas, em
que algumas empresas industriais estão
encerrando suas atividades por não suportarem
as altíssimas tarifas que as empresas
elétricas privadas lhes cobram. Com isso,
agrava-se o desemprego, a miséria e a
violência urbana.
É
direito do povo de São Paulo que os lucros
da CESP, referentes à participação
do estado em seu capital, sejam reinvestidos
na infra-estrutura estadual, em particular no
próprio sistema elétrico. Desde
que os investimentos não faltem, o sistema
elétrico (que é composto pelos
reservatórios com as respectivas usinas
e linhas de transmissão) pode operar
em regime uniforme ao longo das estações
secas e chuvosas, não havendo necessidade
de se apelar em grande escala para a construção
de grandes termelétricas. Bastaria uma
pequena complementação térmica
a biomassa (principalmente bagaço de
cana) e a gás natural.
Ora,
só o Estado tem poder para administrar
um sistema capaz de harmonizar os investimentos
na expansão da capacidade geradora com
o previsível crescimento da demanda,
garantindo que as hidrelétricas sejam
operadas racionalmente, a fim de que as trocas
de energia no sistema interligado não
se desequilibrem e não haja necessidade
de racionamentos.
Joaquim
Francisco de Carvalho foi diretor do setor industrial
do Ministério do Planejamento, engenheiro
da Cesp e diretor industrial da Nuclen (atual
Eletronuclear).
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