| A
criminalização da pobreza
12 de Novembro 2007
Renato
Prata Biar *
O
medo sempre foi utilizado durante toda a história
nos mais diversos lugares e civilizações
como um forte pretexto para que se justificasse,
legitimasse e se naturalizasse certos comportamentos,
doutrinas, leis, punições violentas,
desumanas e cruéis. Um bom exemplo é
a Idade Média e o seu período
da Santa Inquisição com a caça
às bruxas, aos hereges, etc. que, não
muito raro, acabavam queimados vivos na fogueira.
Porém, quero aqui me utilizar apenas
do Brasil como exemplo de uma sociedade que
também passou e ainda passa por esse
périplo.
No
Brasil, os primeiros a serem apontados como
pessoas dignas de se sentir medo foram os índios.
Estes, além de serem denominados como
selvagens, assassinos impiedosos e canibais
(vide o filme do “exemplar” católico,
Mel Gibson: Apocalipto), ainda foram taxados
pelos europeus de preguiçosos, avessos
ao trabalho e, por muito tempo, não eram
considerados como seres humanos, pois achavam
que eles não tinham alma. Ou seja, eram
tidos como criaturas perigosíssimas e
que impediam a implantação de
uma sociedade civilizada e justa, segundo os
padrões europeus de civilização
e justiça. Resultado: um genocídio
“legítimo” e necessário
para o bem e o progresso da humanidade.
Após o extermínio de quase todos
os índios, surge o negro africano.Os
negros, porém, ao contrário dos
índios, eram considerados bons para o
trabalho desde que os castigos, as torturas,
os açoites e os assassinatos cometidos
contra eles, pelos seus respectivos donos e
senhores, fossem sempre muito bem aplicados
no sentido de lhes mostrar quais eram as suas
funções e o seu devido lugar numa
sociedade escravista. Aliás, sociedade
esta que via no trabalho algo totalmente aviltante
e desprezível, sendo por isso considerada
uma atividade a ser exercida apenas por seres
inferiores, ou melhor, por seres mercadorias
(os negros) adquiridas como propriedade privada
para esse ignominioso fim: o trabalho. Aqui,
o negro rebelde, fujão, revoltado e,
mais ainda, os grupos de negros que se organizavam
para reivindicar e lutar por sua liberdade eram
aqueles que deveriam ser temidos, combatidos
e mortos para mais uma vez dar lugar à
manutenção de uma sociedade justa,
pacífica e ordeira. O medo de que os
levantes e as revoltas levassem os “cidadãos
de bem” daquela época a perder
a sua fonte de produção e acumulação
de riqueza, suas regalias e privilégios
dentro de um regime escravocrata, foi um fator
determinante para que a utilização
e a invenção de novos métodos
de punições, leis e doutrinas
de natureza covarde, violenta e desumana fossem
aplicadas para a manutenção do
status quo e dos bons valores morais e éticos
daquela sociedade.ganhou
o mundo, surgem também os novos “algozes”
da sociedade baseada na produção
de mercadorias e no lucro extraído do
trabalho excedente: o proletariado ou, simplesmente,
a classe trabalhadora. Porém, para exercer
o controle sobre estes, tornou-se necessário
a dinamização de um aparato mais
sofisticado e eficaz para vigiar e punir (como
dizia M. Foucault) essas novas ameaças
à nova ordem vigente: a polícia.
A instituição policial, vigilante
e ostensiva 24 hs por dia é uma peculiaridade
de um sistema onde a riqueza está materializada
na propriedade privada dos meios de produção,
na mercadoria e no dinheiro como fim em si mesmo.
Sendo assim, é extremamente importante,
para um sistema como esse, garantir a segurança
total e ininterrupta dos locais onde ficam armazenadas
esses tipos de riqueza, para evitar e combater
o roubo, o furto, quebra-quebra, etc. Dentro
deste novo quadro, os “escolhidos”
para serem os mais temidos, indesejáveis,
perigosos e que mais oferecem riscos a esse
novo modelo de sociedade serão aqueles
que não conseguem ou simplesmente se
recusam a se submeter a essa nova ordem do trabalho:
os desempregados, os mendigos, ociosos, etc.
Para “oficializar” os novos inimigos
da sociedade moderna a denominação
para esses irá variar: vadios, malandros,
pilantras, vagabundos e por aí vai...
Mais uma vez a repressão, a coerção,
a criminalização, o encarceramento
e o extermínio desses “marginais”
foi apontada como a solução para
resolver essas graves ameaças à
ordem, ao progresso do país e aos cidadãos
de bem.
Nos tempos atuais, o malandro já não
existe mais, e o vadio... bem, como identificar
e julgar alguém como vadio se 60% dos
trabalhadores hoje em dia estão na informalidade,
ou seja, não têm carteira assinada
(a falta da carteira de trabalho, há
alguns anos atrás, já caracterizaria
crime de vadiagem)? Isso sem contar que o número
de pessoas desempregadas e sem ao menos uma
ocupação é simplesmente
alarmante. Como, numa situação
como esta, encontrar justificativas para continuar
a exercer medidas de repressão e coerção
sem que o Estado seja acusado de injusto, autoritário
ou despótico? A solução,
embora pareça complexa, foi muito simples:
criminalizar a pobreza, principalmente aqueles
que moram nos morros e favelas. Mas para que
isso ganhasse um ar de legitimidade e legalidade
a estratégia não foi de criminalizar
o pobre pura e simplesmente, mas de associar
o local onde ele habita ao terror imposto por
um novo e moderníssimo grupo de selvagens,
assassinos cruéis e sanguinários:
os traficantes de drogas. A figura do traficante
nessas localidades é o que permite que
se exerça essa política de invasão
e de extermínio, mesmo quando se sabe
que ali funciona apenas uma parte do tráfico.
E digo “parte” porque o tráfico
não se inicia e nem termina nessas comunidades,
é preciso ter bem claro que não
se produz nem drogas e muito menos armas naqueles
locais, e que a enorme quantidade de dinheiro
que se arrecada nesse comércio da venda
de drogas não fica embaixo do colchão
do dono da Boca. O traficante é portanto,
o álibe que o Estado, que representa
a classe dominante, tanto ansiou por encontrar
para por em prática os seus mecanismos
de manutenção da ordem, da disciplina
e dos valores de uma burguesia caricatural,
patética, incompetente e estúpida
que se quer conseguiu forjar uma identidade
própria e, se antes sonhava em ser européia,
hoje sonha em ser estadunidense. Apenas para
concluir, o tráfico serve para justificar,
legitimar e reproduzir a criminalidade da pobreza
sendo, por isso, “permitido” que
se refugie nos morros, favelas e periferias.
Ser pobre num sistema capitalista e neoliberal
é ser ilegal. Daí o tráfico,
atividade ilegal, ter o seu refúgio na
pobreza. Deixa-los armados e provocar confrontos
constantes com essa minoria armada, concretiza
a imagem de alta periculosidade e selvageria
a todos aqueles que ali residem, naturalizando
o consenso de que não há outra
forma de combater o crime senão pelo
enfrentamento e a execução desses
bandidos. E mesmo quando os assassinados são
comprovadamente inocentes, ouvimos o secretário
de segurança ou o próprio governador
dizer que isso foi um “efeito colateral”.
Quem sabe não devemos ressuscitar aquele
debate que houve entre Sepúlveda e Las
Casas sobre se os índios tinham alma
ou não, e discutirmos agora se o favelado
é gente, coisa ou animal.
* Renato Prata Biar é
historiador, da Rede de de Comunidades e Movimentos
Contra a Violência do Rio de Janeiro
Fonte: http://www.redecontraviolencia.org/Artigos/233.html
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