| O
direito à saúde integral e à
educação para a vida
26 de Outubro 2007
Aurea
Fuziwara (assistente social, Osasco)
Para
pensar a infância e a adolescência
na sua relação com a política
intersetorial, partimos do reconhecimento de
que esta população encontra-se
em condição peculiar de desenvolvimento,
são sujeitos de direitos e têm
prioridade absoluta. Seu processo de sociabilidade
demanda do fortalecimento e garantia do convívio
familiar e comunitário, reconhecendo
suas trajetórias e culturas.
Neste sentido, a política pública
deve agir para afirmar esta concepção
e combater as violações. O Estatuto
da Criança e do Adolescente- ECA- estabelece
a política de atendimento (art 87) e
a Constituição Federal estabelece
o direito à participação
popular na formulação e controle
das políticas públicas (art 204).
Para esta discussão também tomamos
como orientação o entendimento
de uma política que garanta os direitos
de todas as crianças e adolescentes.
Deve haver uma proteção urgente
aos mais vulnerabilizados, mas a historiografia
que aborda o trato à infância demonstra
que as ações sempre se voltaram
a este grupo, perdendo de vista as contradições
da sociedade capitalista, mantendo ações
fragmentárias e caritativas, que além
de destituir o papel de sujeito político
também maquia as reais causas da miséria
e da opressão.
Alguns questionam se falar especificamente de
"criança e adolescente" não
corresponde a uma perspectiva pós-moderna,
fragmentando a realidade. A nossa perspectiva
é de repensar o grupo etário para
além disso, compreendendo que pode representar
o repensar das relações intergeracionais
pensando O SUJEITO a partir de OUTRO LUGAR,
o de PESSOA EM CONDIÇÃO PECULIAR
DE DESENVOLVIMENTO. Os adultos, ao pens
Neste cenário é importante levantar
dados alarmantes:
Em 1990, 40,5% da população brasileira
tinham menos de 19 anos. Neste mesmo período
verifcou-se que 53,5% das crianças viviam
em famílias com menos de ½ salário
per capita. Deste percentual, 30% estavam na
faixa de 0 a 6 anos e 20% dependem exclusivamente
da mãe.
O Brasil não passou por guerras, mas
tem, segundo o IPEA, 80 mil crianças
abrigadas. Temos por motivo de abrigamento:
24,1% Pobreza
18,8% abandono
11,6% dependência química
7% em situação de rua
Sobre os vínculos familiares observou-se
que:
86,7% tem família
58% mantém vínculo
5% são órfãos
OBS1-a pesquisa do IPEA foi uma ação
desencadeada pela Caravana de Direitos Humanos,
em 2001, que levantou as péssimas condições
das unidades de internação de
adolescentes e de abrigamentos no Brasil
OBS 2- Conforme o ECA, o abrigamento é
medida excepcional e deve ser provisória
(o mínimo de tempo possível).
Não é justificável abrigamento
por situação de carência
sócio-econômica, que deve ser atendida
pelas políticas públicas.
É inegável que a manutenção
de crianças nos abrigos é muito
mais oneroso, do ponto de vista financeiro,
e traz prejuízos emocionais às
crianças, do que se houvessem ações
voltadas para a melhoria das condições
psicossociais das famílias. Outro dado
impressionante é que apenas 54% das crianças
estavam sendo acompanhadas judicialmente, o
que vem a configurar de certo modo uma espécie
de cárcere privado, onde elas se tornam
novamente objeto da caridade.
Mães adolescentes
No tocante a saúde, um fato importante
é que "mais de 50% das meninas,
dentre 15 e 19 anos, com baixa escolaridade,
já tiveram o primeiro filho". De
1993 a 1998 aumentou em 31% os partos de meninas
entre 10 e 14 anos. 20% das mães brasileiras
estão na faixa de 10 a 19 anos. Assim,
este cenário traz outros agravantes:
graves riscos ao desenvolvimento e à
saúde das mães adolescentes. Alem
disso, muitas destas crianças acabam
vivenciando maus-tratos e são colocados
em adoção (a criança/adolescente
tendo interrompido/prejudicada esta fase de
sua vida, tem dificuldade em maternar seu filho).
20%
dos nascimentos são de mães adolescentes
entre 10 e 19 anos.
Mães adolescentes tem maior risco de
mortalidade por complicações da
gestação, do parto e puerpério
são a principais causas de morte na faixa
de quinze a dezenove anos. Os bebes também
tem maior risco de nascer com baixo peso (e
as implicações disso são
graves).
* DADOS DO MINISTERIO DA SAÚDE
O planejamento familiar e prevenção
de DST/Aids tem sido realizado ainda do ponto
de vista do controle de natalidade e das doenças.
Exclui os sentidos, o afeto , a sexualidade,
os projetos, o respeito à diferença,
os direitos. Não há sujeito, mas
um corpo a ser preservado. Muitas vezes verificamos
a falta de metodologia para tratar do tema com
adolescentes. O atendimento à gravidez
da mãe adolescente muitas vezes exclui
o pai da criança.
Questões
É preciso investimento voltado à
população juvenil, tomando-a como
tema para a saúde pública e educação
formal e informal. Aqui entram temas como qualidade
de vida, saúde reprodutiva, drogas (lícitas
e ilícitas no sentido de compreender
o processo de dependência e não
de mera punição ou coerção
legal).
É
preciso romper com a lógica sexista da
política de saúde, que somente
envolve as mulheres, contestando preconceitos,
tanto de usuários quanto de profissionais,
criando forma de acompanhar a gestação
e os primeiros anos da criança. Já
existem programas para educação
do pai.
É preciso garantir programa pré-natal
e outros no PERÍODO NOTURNO E NOS FINAIS
DE SEMANA.
A
organização dos serviços
não atendem às necessidades da
população trabalhadora, que em
condições precarizadas não
têm PROTEÇÃO SOCIAL para
ACESSAR SEUS DIREITOS CONSTITUCIONAIS –
como a SAÚDE.
A adolescente não é considerada
um sujeito, mas um corpo a ser preservado. Muitas
vezes verificamos a falta de metodologia para
tratar do tema com adolescentes. O atendimento
à gravidez da mãe adolescente
muitas vezes exclui o pai da criança,
reproduzindo a mentalidade machista da sociedade
brasileira.
Vale
ressaltar que a atenção exclusivamente
no setor da saúde, sem se considerar
a fase peculiar de desenvolvimento de adolescentes
mães e pais, acaba por atender parcialmente
a questão, focando mais na sobrevivência
dos bebes, do que na possibilidade de vivencia
da maternagem/paternagem dos jovens para uma
relação parental sadia, que possibilite
inclusive desenvolverem-se emocionalmente. Assim,
qual a possibilidade de mudanças a médio
e longo prazo se não se investir também
nas relações intergeracionais,
nas figuras parentais e de afeto e segurança?
Neste sentido, os programas relacionados a adolescência,
sexualidade e saúde reprodutiva contribuirão
favoravelmente a médio e longo prazo
se agregarem outros elementos. Novamente, verifica-se
a importância de não pensar apenas
os riscos, mas as particularidades e potencialidades
da população infanto-juvenil para
a consolidação de uma outra sociedade.
|