| Trabalhadores
vivem de empregos temporários
Valdemar Rossi
Originalmente publicado
no Correio da Cidadania
Nas
últimas semanas, os jornais de grande
circulação vêm anunciando
aberturas de vagas de trabalho, apenas para
o final de ano. São vagas abertas nas
empresas do comércio, visando atender
às demandas natalinas. A maioria, se
não a totalidade, dessas vagas é
para jovens. Aos adultos desempregados cabe
esperar pelo milagre de terem uma chance. Sabemos
que parte pequena desses/as trabalhadores/as
receberá como "recompensa"
pelos seus esforços efetivação
no emprego. Para esses será um momento
de glória, já que terão
um - ainda que mísero - salário
mensal, glória porque isso ajudará
na manutenção do lar. Enquanto
que outros/as tantos/as entrarão no "purgatório"
do desemprego e terão que comer o pão
que o diabo amassou, perambulando pelas cidades
em busca de nova oferta de trabalho. Aos que
tiverem a felicidade de encontrar essa nova
vaga restará ainda se contentar com novo
rebaixamento salarial. Pois é para isso
que as empresas prometem contratar alguns dos
temporários: promover a rotatividade
da mão-de-obra, manter rebaixados os
salários e com isto garantir gordos lucros.
São abutres revoando sobre cadáveres,
aguardando o momento de iniciar suas bicadas
assassinas.
Eis
a lógica perversa do capital. Herança
deixada pelo modelo de desenvolvimento industrial
introduzido pelos militares que assumiram o
governo brasileiro, protegidos pelas suas armas,
aliás, armas adquiridas com o dinheiro
do povo e que deveria ser usado para a educação,
saúde e tantos outros setores essenciais
para a vida do contribuinte. Não que
antes o trabalho temporário não
existisse. Existia. Porém, jamais nos
níveis atuais, porque a indústria,
importada a partir do final dos anos 60 do século
passado, não tinha por objetivo o crescimento
econômico permanente do país. Seu
objetivo era tão somente aqui se instalar,
produzir e vender em maior quantidade possível
e, uma vez vencido esse curto ciclo, mudar-se
para outras bandas do mundo, deixando como resíduo
milhões de brasileiros amontoados nos
grandes centros urbanos, não lhe importando
seus destinos nem a qualidade de suas vidas.
Ao capital, por ser predador por natureza, o
trabalhador só interessa enquanto produtor
de suas riquezas ou enquanto consumidor dos
bens produzidos pela sua própria classe.
Não
era isso que prometiam os militares, quando
da intensa propaganda do "Este é
o Brasil que vai pra frente!" ou do "Brasil,
ame-o ou deixe-o". O que "vendiam",
sobretudo aos trabalhadores do campo chamados
que eram para deixar suas terras, era que nos
grandes centros encontrariam bons trabalhos
com salários compensadores, moradia decente,
férias, 13º salário, atendimento
médico para toda a família e educação
para os filhos. Prometiam o "paraíso
terrestre". As cidades incharam e o povo
foi ficando amontoado nos cortiços e
nas favelas. O campo foi se esvaziando, os latifundiários
e o capital internacional se apossando de suas
terras – com o aval e o apoio armado da
repressão dos governos estaduais –,
passando à larga produção
agrícola para a exportação,
enquanto que a fome crônica atinge a mais
de 70 milhões de brasileiros.
Os
governos da pós-ditadura, todos, prometeram
e continuam prometendo a reversão profunda
desse quadro dantesco. E o povo, sempre inebriado
pelo sonho de uma vida melhor, vem acreditando
nas mudanças, esperando que elas aconteçam
vindas "de cima", dos que ele, povo,
ajudou a eleger. Continuando a mentira institucionalizada
– segundo a qual é preciso repeti-la
até que se torne verdade –, os
governantes dos municípios, estados e
federal vão postergando tais mudanças
para que possam ser repetidas a cada eleição.
Da boca dos eleitos e empossados, sempre ouviremos
que há carência de recursos diante
de muita coisa a ser feita, que algumas obras
- que oferecem bom visual - são "importantíssimas"
para a cidade, estado ou país. Faltará
sempre dinheiro para o salário mínimo,
para as escolas e saúde públicas,
para o saneamento básico, para o transporte
decente, para as moradias populares. Porém,
jamais ouviremos de suas bocas que falta dinheiro
para as empreiteiras, para a mansões
da classe média alta, para os juízes,
os deputados, senadores, vereadores, secretários,
ministros, generais, esses que vão tendo
cada vez mais vida de nababos. Sobretudo o governo
federal vem dizendo e repetindo que não
há recursos para a reforma agrária,
para o desenvolvimento interno. Mas doa vários
bilhões de reais às empresas e
bancos que se dizem afetadas pela crise financeira,
essa crise que assola o universo capitalista
central (Europa e Estados Unidos).
E
o povo, envolvido emocionalmente pelos dramalhões
desencadeados pelas emissoras de TV, ainda aplaude
esse escoamento do dinheiro público pelos
ralos do capital corrompido e corruptor. Pobre
povo que vai continuar a viver desempregado,
de bicos, de empregos temporários, com
salários rebaixados, mas cheio de ilusões,
acreditando em Papai Noel.
E
os altos dirigentes das centrais sindicais ficam
preocupadíssimos em saber o quanto cada
central vai abocanhar no próximo ano,
dinheiro que será arrecadado dos salários
minguados dos que ainda encontram trabalho formal!
A vida do povo trabalhador não está
na agenda das centrais sindicais.
Waldemar
Rossi é metalúrgico aposentado
e coordenador da Pastoral Operária da
Arquidiocese de São Paulo.
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