“Todo crime é político”

Trechos da entrevista de Nilo Batista* à Revista Caros Amigos (nº 77, Agosto de 2003)

Advertência: Estão aqui selecionados trechos que, às vezes contém a pergunta dos jornalistas, às vezes não. Os nomes dos jornalistas não estão aqui, mas poderão ser consultados na revista. Este resumo é feito na intenção de fazer melhor compreender em que contexto mundial e histórico se inserem as atuais políticas de segurança pública dos Estados e da União, bem como o discurso da imprensa. Em nota estão alguns esclarecimentos.
Pergunta: Você teve experiência nos dois governos Brizola. Como vê essa idéia de que foi com o Brizola que      todo esse descalabro começou, os traficantes mandando nos morros, etc

Resposta: Isso foi uma peça publicitária, um professor não tem o direito de falar isso. São professores que falam isso do lugar político deles, encaixados que estão na direita, seja a direitona do Cesar Maia, com seu projeto de “ou prisão, ou vala”, seja um projeto político conservador, embora não saibam que o projeto é conservador. Brizola está quilômetros na frente desses professores na percepção das opressões criminais. Devo dizer que eu, de alguma forma, aprendi muito com ele. Tive o privilégio de acompanhar de perto essas intuições dele com relação ao conteúdo político das opressões penais. Muito Phd (1) não se toca disso. Podemos ter dois discursos econômicos, ou três, ou quatro, mas discurso político criminal só existe um. Haja vista a identidade dessas propostas nos discursos eleitorais, eu não conseguia ver diferença entre o discurso do Genoino e o do Tuma, e isso é muito mais grave do qualquer espécie de, como se dizia, cumplicidade minha e do Brizola com o tráfico. Porque realmente tentávamos impedir o conjunto de brutalidades que essa política norte-americana de drogas alavanca na aterrorização da pobreza urbana na periferia do “videocapital financeiro”, para homenagear o Gilberto Felisberto Vasconcelos.(2)

Pergunta: Mas, se muitos PhDs, como você disse, não se tocam disso por questões eleitorais, então por quê?
Resposta: Porque hoje em dia esse discurso policial virou uma questão estratégica. A realidade estatística da incidência criminal não é levada a sério. Uma variação de zero ponto alguma coisa num indicador econômico é objeto de três ou quatro artigos de um jogo de conjecturas e prospecções, mas a estatística criminal é olhada sempre como peça publicitária. Você pega a coisa e preenche uma página ouvindo meia dúzia de especialistas concordes, porque a mídia quer alavancar o medo, medo hoje é estratégico. O empreendimento neoliberal destrói o Estado do Bem-Estar e o substitui por uma Estado penal. Os assuntos penais começam a ganhar status político porque o Estado que está se lixando para a qualidade de vida das pessoas, para a saúde, a educação, Previdência, etc., esse Estado tem um grande e ambicioso projeto, que é o da criminalização das relações sociais, dos conflitos sociais. E se o seu projeto de habitação para a pobreza é construir penitenciárias, você tem de ter um discurso que legitime o sistema penal e permita a compreensão dos conflitos sociais através da criminalização. É claro que essa é uma redução empobrecedora, uma grossura, só que como isso acaba recebendo uns abanos de setores que, em princípio, deveriam estar questionando, setores que têm uma história crítica, de repente, todo mundo começa a entrar nisso, com uma visão completamente estranha ao direito, que é a visão moral. (...) Ao lado disso há uma pauta criminalizante que é econômica. O que é a pauta criminal do FMI? Lavagem de dinheiro. Lavagem de dinheiro é muito importante para não estragar uma boa especulação, você vai quebrar um país latino-americano e vai ganhar 200 bilhões de dólares do dia pra a noite e, de repente aparece na outra ponta um capital que você sabe de onde surgiu? Lavagem de dinheiro se encarrega de evitar riscos para uma boa especulação do capital central limpo. Os criminólogos críticos se interessam muito mais pelos crimes de dinheiro limpo, se é que não há uma contradictio in adjecto nessa expressão. São movimentos paralelos: garantir o monopólio da especulação e a criminalização da economia informal, que vai passar, claro, pela droga, mas pega também a prostituição, o jogo do bicho, pega flanelinhas, o horror que a assepsia neoliberal do “Grande Irmão” (3) tem com relação às estratégias de sobrevivência dos pobres da periferia. Mas muita gente internaliza que a pena é que vai mediar as relações sociais e decidir sobre conflitos sociais, setores inteiros do que poderia ter sido chamado de esquerda internalizam isso e batem palma para isso. E de repente ... sabe quantos mortos tivemos no primeiro semestre deste ano no Rio de Janeiro? 5.123, sinalizando mais de 10 mil no ano. Um grande percentual está ligado à criminalização das drogas e são, portanto, execuções em confronto com a polícia ou disputa estratégica pelo comércio clandestino local. Então a política de criminalização das drogas – que usamos e é importante também para os Estados Unidos poderem ter fuzileiros e conselheiros militares na Colômbia e espichar o olho na Amazônia – é uma política genocida. Esse é um projeto do tempo do primeiro Bush e do “inesquecível” Reagan – partia da teoria países-vítimas e países-agressores. Países-agressores, claro, Colômbia, Peru, Bolívia. Países-vítimas, naturalmente os da Europa Ocidental e os Estados Unidos, onde se realizam os lucros, porque a comercialização final se dá no norte. No sul, produção e morte, no norte, o desfrute e os ganhos.
Pergunta: E essa lei que proíbe o porte e prepara o terreno para a proibição do comércio de armas?

Resposta: É uma media simbólica, uma total ingenuidade. Se acontecer essa proibição, seremos invadidos ainda mais por armas de fora. (...) Hoje é importante para a geopolítica norte-americana que as drogas sejam criminalizadas como são, mas, vencida essa etapa, na hora em que eles não precisarem mais do chicano ou do árabe como bode expiatório, na hora em que tiverem o ciclo produtivo na mão ... Se o processo produtivo das drogas estivesse na mão dos mesmos grupos que detém a fabricação e a comercialização das armas, as drogas já estariam legalizadas.

Pergunta: E essas saídas propostas pelas ONGs. especialmente o Viva Rio, esses projetos de integração social via esporte e arte?

Resposta: O Viva Rio foi constituído por lideranças muito conservadoras, Associação Comercial, Firjan, donos de jornais, para ajudar a alavancar 1994, quando o neoliberalismo ia se estabelecer com Fernando Henrique e Brizola ia ser ferrado. Eu disse, e saiu publicado naquela ocasião no Jornal do Brasil, que o Viva Rio era um movimento social de proveta. Conheço uma monte de pessoas, a maior parte muito pobres, que não se sentem representadas nem um pouco por isso que, em algum momento, os favelados da cidade chamaram de Viva Rico.
(...)
Pergunta: Mas parece que esses projetos sugerem que se o cara tem 50 reais, ele não pode mais dizer que não teve a oportunidade.

Resposta: O que há é o seguinte: o Estado do Bem Estar tinha um sistema penal que, como todo sistema penal, era uma coisa destrutiva, negativa, porque a pena é o pior modelo de decisão de conflitos. Quando você criminaliza um conflito, faz uma opção política. Não existe crime natural. Todo crime é político. (...) Esse sistema penal, que fazia intervenção econômica, que entrava numa série de conflitos com penas brandas, que não fossava a intimidade das pessoas, tudo isso agora acabou, abriu-se em dois no capitalismo tardio: para os consumidores, mil soluções criativas para evitar a pena de prisão, e todo um discurso dizendo “não”, a prisão faz muito “mal”, foram criados juizados especiais, composição, mil sortilégios, conversão de penas até quatro anos em penas restritivas de direito, prestação de serviços à comunidade, caridade penal, cesta básica que o juiz manda dar, tudo isso é metade desse sistema penal. A outra metade é para as obras criminais toscas da pobreza. Que não está atropelando ninguém com carro porque não tem carro, não está fazendo uma falsidade aqui, um estelionato ali. O que eles estão fazendo é pegar o meu Rolex, ver se podem ser consumidores, se podem ter um upgrade ... porque no capitalismo industrial também era aquela coisa: penitenciária, fábrica, e uma praça no meio, com o exército industrial de reserva. Agora você tem a reprodução do capital no shopping, então você deixa lá os consumidores, mas os filhos da pobreza, os inúteis da nova economia, é outra coisa: crimes hediondos, nada de progressão de regime, quem disse que a prisão faz mal? Deixa o cara apodrecer lá. Delação premiada! Delator é hoje um herói. Choferes, secretarias, esposas, gente que foi cúmplice, compactuou, de repente gira e entrega aquilo de que se beneficiou o tempo todo e pega um estatuto moral positivo, reconhecimento público. E nego vasculha o lixo, a intimidade, as provas ilícitas, escuta telefônica... então é por aí que o Grande Irmão está entrando, com o aplauso geral de forças que pretendem ser de esquerda, e que adoram tudo isso. O novo herói é o policial. Carlitos agora é vilão.

Pergunta: O senhor classifica a mídia como agência de executivização do sistema penal e cita o programa Linha Direta.(4)

Resposta: Linha Direta é o caso mais flagrante de executivização. Outro dia foi anulado um julgamento porque passou a gravação do Linha Direta antes. Para não falar de outros casos: tinha um cara que era acusado de ter matado a mulher, ou o cunhado, na Paraíba, ele sai no Linha Direta às 11 hs. da noite, é preso às 6 da manhã em Arraial do Cabo, é levado para Cabo Frio e chacinado pelos outros presos ao meio-dia. Aquilo ali é um absurdo.
(...)
Pergunta: Mas com a mídia e as autoridades martelando esse discurso penal o tempo todo, quais os caminhos para resistir a isso?

Resposta: Um bom ponto de partida seria aprimorarmos o debate nos restritíssimos meios que não estão comprometidos. Mantido o modelo, não espere que a grande mídia vá abrir espaço para uma coisa que é um dado político da conjuntura. Faz parte do modelo. O elemento de intervenção que o príncipe neoliberal tem é a pena. Ele distribui tudo. Todo mundo pode ir lá roçar, fazer seus lucros. “Vai aqui o pessoal da telefonia, vai aqui o pessoal da energia. E eu tomo conta. Não vá passar da cerca, não! Tranquilize-se a agroindústria! vamos manter a tragédia fundiária brasileira. Não vamos sair de 1850, da Lei de Terras”. É porque isso é um movimento estratégico para a criminalização da pobreza, dos movimentos sociais. Com isso alavanca-se a polícia. É tudo o que eles querem. O decreto de Fernando Henrique, ou lei que ele fez votar, diz o seguinte: terra ocupada não pode ser desapropriada. Querem saber porque a escravidão era legítima durante o Império? Um artigo da Constituição de 1924 dizia o seguinte: “é mantido o direito de propriedade em toda a sua plenitude”. Aí estava a escravidão. Se o MST ocupou aquela área ali, não seria mais razoável que se verificasse a situação para desapropriar exatamente essa? Mas não! Em termos jurídicos, isso é desobediência. Você desobedeceu o rei! Fernando Henrique era rei mesmo. Qual a razão de uma lei que diga isso? Desobediência! Que é algo meio deslegitimado dentro do Estado de direito democrático. Se você ocupa uma terra, olha e constata “isso aqui é improdutivo, é meio grilado, devia ser uma terra pública, é uma terra devoluta... vamos ocupar aqui”, você não pode. Não pode conduzir aquilo que a Constituição ordena e quer. Só o rei! Cadê a democracia? Só o rei, Fernando Henrique. Que é isso?
(...)
Pergunta: Os baloeiros estão sendo criminalizados, os brigões do Maracanã estão sendo criminalizados, e toda essa ênfase em torno do Fernandinho Beira-Mar, isso não tem a ver com a justificativa para a construção de mais penitenciárias?

Resposta: O Fernandinho Beira-Mar é estratégico porque a passagem dele pela Colômbia seria esse elo político fundamental para compactar os discursos de droga e os discursos de repressão à guerrilha colombiana que domina 40 por cento do território e é uma questão política, um estado de guerra civil. Portanto o olhar internacional deveria ser completamente outro. Esse é o problema: a criminalização usada como expediente de desqualificação política, ou de repressão política, a pretexto do que aparece como crime comum. Dos anos 60 até hoje, houve também uma imperceptível mas importantíssima despolitização da droga.

Pergunta: Esse assunto o senhor vem tematizando há trinta anos de forma recorrente. Gostaria que o senhor comentasse sobre a criminalização do usuário, que foi intensa durante o governo Fernando Henrique e continua sendo no atual governo.

Resposta: Há uma tendência de política criminal que não é a nossa, que é a de certos grupos políticos onde numa ponta estão o Gabeira, o Carlos Minc, e na outra esses promotores que trazem essa invenção norte-americana chamada “justiça terapêutica”. Então, é um arco que passa por setores que se pretendem de esquerda até setores que são escancaradamente de direita. Você não pode projetar uma política criminal pensando no usuário, porque é uma contradição. Tem de fazer uma política criminal pensando no fenômeno como uma totalidade. Liberar o usuário e matar os pobres, nas encostas andinas, ou no sertão e no agreste do Nordeste brasileiro, ou na periferia dos grandes centros urbanos. Pois quem corre o risco desse comércio letal? Só os filhos da pobreza! Nossos filhos serão os usuários. Vão lá comprar, de um garoto que é igual a eles, só que negro e pobre, senão não estava ali vendendo. Verinha (5) estudou isso no livro dela, Difíceis ganhos fáceis, sobre drogas e criminalização.

Vera Malaguti Batista : Tem uma coisa perversa. O pessoal que propõe a descriminalização do usuário vai na vertente Posto Nove (6), falando para um público que já é descriminalizado, que é o usuário de classe média e da Zona Sul. E que não quero criminalizar, veja bem. Mas a contrapartida para esse discurso consentido é pena maior para o traficante. Não temos um problema de saúde pública por alto consumo de drogas ilegais, temos problemas muito maiores na frente: tuberculose, alcoolismo... Por onde a questão das drogas sangra literalmente é no tráfico. Então, você tem isso de descriminalizar o usuário mas manter a criminalização do traficante. que virou uma categoria fantasmática, o traficante é o demônio, ele não tem casa, não tem mãe; ou você tem o projetinho da embaixada americana, o “justiça terapêutica”, que diz: o usuário é uma vítima. E aí reproduz todo o positivismo do século XIX, e faz uma justiça que não apenas julga, também cura. Então obriga o usuário a ir perante o juiz, fazer teste de drogas, tem de se vestir bem, tem de ter notas boas. Um monstrengo positivista que voltou através dessa coisa. A descriminalização do usuário poderia ser o começo de uma legislação geral, mas como eles estão legislando para o Posto Nove, fica uma coisa perversa, porque quem já está descriminalizado será descriminalizado e onde está sangrando, que é na periferia, aumenta-se a hemorragia.

Pergunta: Mas você pode ter consumidores pobres, e aí, pra esses...
Resposta: Pobre não é consumidor, na melhor hipótese é viciado.
Vera Malaguti Batista: Um aluno nosso de mestrado contou que era delegado em Jacarepaguá, Zona Oeste, vetor de crescimento da cidade, onde estão os pobres, porque pobre não pode morar na Barra da Tijuca. E ele fazia todo dia registro de ocorrência de artigo 12, que é tráfico. Depois ele foi transferido para a Barra da Tijuca. E percebeu que ali nunca fazia o registro do 12. Será que não tem traficantes na Barra da Tijuca ou será que na Barra da Tijuca não tem pobres? O menino branco de classe média, que tenha 400 gramas de maconha, vão dizer que comprou porque vai fumar a longo prazo. Isso é um dado concreto!. O outro está com pequena quantidade, mas como é pobre, mora em favela e está com quatro papelotes, não vai comprar, vai vender. Ele é ontologicamente traficante. É criminalizável. E ao longo da história, é droga agora, antes era a capoeira, e antes da capoeira ...
Pergunta: Mas isso [as idéias de Nilo e de Vera] não ajudaria a sedimentar a idéia de que há um poder paralelo do tráfico que ficaria fortalecido, porque controla as associações de moradores?

Resposta: Esse é o olhar dos professores alinhados à direita. As associações de moradores, tanto quanto os postos de policiamento comunitário, têm de conviver com a inexorabilidade da situação. Será que as leis do mercado só funcionam no mundo financeiro? Não funcionam para mercadorias na economia informal? E quem é que corre os riscos? São os pobres. Então faz parte dessa criminalização generalizar. Um pouco da responsabilidade disso é desses caras que dizem genericamente que a associação de moradores está na mão do tráfico. Levianamente. Pode ser que aqui e ali tenha, mas o que é “estar na mão do tráfico”? O que é essa entidade, “o tráfico”? Heresia. Existem garotos pobres que têm pai, mãe, nome...

Vera Malaguti Batista: Se tiver pega de carro não vai ser o pegueiro, vai ser o jovem que dirigia o carro tal, tem nome, mas traficante não, virou uma categoria fantasmática, é uma categoria policiai que migrou para a academia, para o jornalismo, para a psicologia e que não tem cara, não é mais humano. É uma coisa do mal.
(...)
Pergunta: Você teme o retrocesso dos direitos humanos, na medida em que temos o Garotinho comemorando cem mortes em quinze dias e em São Paulo a polícia de Alkmin matando como nunca, meninos da Febem em prisões para adultos e o Calandra, notório torturador, funcionário do Estado?

Resposta: Olha, quando o Secretário Nacional dos Direitos Humanos (7) diz “temos de tomar medidas mais duras contra o crime...” Medidas mais duras? Tá bom, instaure um regime completamente arbitrário, com porrada, tortura e desaparecimentos, você consegue alguma coisa? Como foi que a ditadura venceu a resistência armada? Vale isso? Ou pagamos o preço de um Estado de direito democrático? Pagamos ou não pagamos? Se queremos pagar, chupamos todo o caroço da democracia representativa burguesa e ao sumo não temos direito? O sumo é só esse. Mas a esquerda não entende isso. A política criminal que está rolando é igualzinha à política econômica. Cortes nas garantias individuais, flexibilização ... a pena tem de ser mais fácil.
(...)
Pergunta: “Vamos reservar as prisões para os criminosos violentos e perigosos ... “

Resposta: Aqui estão os pobres com suas obras criminais toscas. Com suas lambanças. Quando querem fazer alguma coisa que é apenas um comércio ilegal, vão ser combatidos, vão morrer. Estão só querendo vender um mato para os garotos ricos, de classe média, brancos, que adoram comprar aquele mato e, tiro neles! Matar! O único emprego, o garoto tem 14 anos. Como é que o pai vai convencer o garoto a ganhar 240 reais por mês se ele pode ganhar 400 por semana para soltar rojões? Os mais brilhantes, os mais vivos, os mais espertos são os que estão ali. Esse tesouro está sendo chacinado por causa da política norte-americana, para os Estados Unidos poderem botar fuzileiros, criminalizar a Amazônia, falar em narcoguerrilha. E somos tão subordinados... até essa coisa de narcotráfico. Nem maconha, nem cocaína, que são os únicos problemas nossos, são narcóticos. Narcóticos são os opiáceos, não temos opiáceos aqui. Tinha de chamar o Zé Dirceu, chamar as lideranças e dizer não, o governo fecha questão, não queremos ser matadores, não queremos ter as mãos sujas de sangue dessa chacina que é o sistema penal brasileiro desde a sua fundação, sempre foi assim.
(...)
Pergunta: Então temos de nos resignar com a prática de tortura na polícia?
Resposta: Se alguém quisesse uma redução da tortura, deveria começar banindo do Código de Processo Penal a confissão como prova. O suspeito, o acusado não pode falar uma palavra. Deveremos fazer toda a investigação sem perguntar-lhe nada, renunciando aos esclarecimentos que proviessem dele. Imagino só aquela bancada policialesca da Câmara diante de um projeto de lei assim! Tortura e confissão são companheiras milenares.
(...)
  * Nilo Batista é advogado, Professor Titular da Univ. Estadual do Rio de Janeiro, e da Univ. Cândido Mendes, do Rio, dirige o Instituto Carioca de Criminologia, foi Secretário de Justiça do 1º Governo Brizola, no Rio, e Vice-Governador, no 2º Governo Brizola, exercendo o mandato de governador no último período.

(1) Doutores.
(2) Professor da Univ. Federal de Juiz de Fora e jornalista da Caros Amigos.
(3) Referência ao livro 1984, de George Orwel, que descreve um Estado policialesco.
(4) Programa da TV Globo.
(5) Vera Malaguti Batista, socióloga e esposa de Nilo.
(6) Posto de salvamento na Praia de Ipanema, onde se concentram os usuários de drogas proibidas, pertencentes à classe média e alta.
(7) Nilmário Miranda.