| Os
Estados Unidos, eleições presidenciais
e alternativas políticas
Fábio
Nogueira e Iacy Maia Mata
No
dia 04 de novembro de 2008 haverá a eleição,
no colégio eleitoral, do próximo
presidente norte-americano. Para a maior parte
da população do globo, há
dois candidatos: John McCain, do Partido Republicano,
e Barack Obama, do Partido Democrata. No entanto,
nestas eleições concorrem ainda
os partidos menores, chamados terceiros, como
o Partido Verde, com a candidata Cynthia McKinney,
e o Partido Socialista dos Estados Unidos, representado
por Brian Moore, além de Ralph Nader
e Alan Keyes, candidatos independentes e ligados
a grupos conservadores. O debate eleitoral estadunidense
gira em torno de temas como economia norte-americana,
imigração, política externa,
com destaque para a guerra contra o Iraque e
o Afeganistão, a relação
com o Irã e a relação com
a América Latina (em especial, Cuba e
Venezuela).
McCain e Obama
O Senador John McCain, militar e empresário,
candidato republicano à Casa Branca,
representa os oito anos da administração
criminosa do Governo Bush, a Guerra ao Iraque
e ao Afeganistão, a articulação
para o golpe contra a democracia venezuelana,
com o seqüestro de Hugo Chávez em
2002, a inércia e responsabilidade dos
mortos pelos efeitos do furacão Katrina,
o programa antidrogas na América Latina
que criminaliza os camponeses indígenas
bolivianos, a aliança com Uribe e os
paramilitares na Colômbia, a perseguição
aos imigrantes e a política de repressão,
na fronteira com o México, e o seu segregador
Muro da Vergonha (e, além disso, os escândalos
financeiros de empresas ligadas a Bush). McCain
é a continuidade desse projeto e da doutrina
do “‘destino manifesto’: defende
que os Estados Unidos devem assumir seu papel
de polícia do mundo e encetar, inclusive,
guerras preventivas”. (Fonte: Globo.com,
11/06/2008, “McCain é muito mais
intervencionista que Bush, diz biógrafo”)[1].
Os
Democratas, navegando na impopularidade e nas
críticas ao governo e ao belicismo da
Era Bush e do seu continuador, McCain, se apresentam
com um discurso mais progressista. Em certa
medida, a ampla mobilização em
torno das pré-candidaturas de Hilary
Clinton e Barack Obama são uma tentativa,
por parte dos militantes do partido, de reverter
os efeitos da derrota eleitoral para Bush dos
candidatos democratas Kerry e Al Gore nas duas
últimas eleições. Mais
do que as candidaturas anteriores, o sentimento
da base democrata é da necessidade de
ter uma candidatura com suficiente legitimidade
para ser, de fato, um anti-Bush (qualidades
que faltaram às candidaturas de Kerry
e Al Gore). Neste sentido, quem saiu na frente
foi o Senador Barack Obama, que colocou no centro
de sua estratégia eleitoral a palavra
Change (Mudança). Ao lado disso, outro
elemento não pode ser ignorado: Obama
é negro, um recado aos racistas estadunidenses,
e se diplomou em Havard (em um país,
como o Brasil, em que a presença de negros
nas instituições de ensino superior
e excelência depende, sobretudo, de políticas
de ação afirmativa). Esta simbologia
de Obama o colocou em condições
de ser o anti-Bush e um elemento de mobilização
em torno de um discurso que tem como eixo a
Mudança. Em outros termos, é uma
forma de reatualizar a hegemonia burguesa nos
Estados Unidos ao colocar como uma das alternativas
de poder para o país um candidato negro,
carismático e com um discurso mudancista.
Desta maneira, caem por terra certas análises
que desconsideram a relação entre
os conteúdos simbólicos e materiais
dos discursos políticos: toda a hegemonia
é uma articulação de sentido,
um movimento complexo e, no caso dos Estados
Unidos, ela está sendo recriada a partir
da simbologia da luta pelos direitos civis,
empreendida por negros e indígenas há
mais de um século. Por outro lado, para
os adeptos da concepção do líder
jamaicano Marcus Garvey (1887-1940) de “a
raça primeiro” e que pensam a questão
racial deslocada das relações
sociais e econômicas, ter um presidente
negro como Obama significa um grande avanço.
No
entanto, é importante perguntarmos: Quem
apóia Obama? Qual o seu programa? Como
o candidato democrata combaterá as desigualdades
sociais e raciais? Os Democratas, mesmo no governo
Bush, têm maioria nas duas casas do Parlamento.
No entanto, na Agenda das 100 Primeiras Horas
de 2007 da maioria congressual democrata não
houve qualquer menção ao Katrina
e à população negra atingida,
como vem denunciando Cynthia McKinney, candidata
do Partido Verde. Em relação à
América Latina, Obama considera que os
Estados Unidos têm sido uma força
em favor das liberdades nas Américas
(liberdade política, liberdade religiosa,
liberdade da carência e liberdade do medo)
e defende que o país tenha uma diplomacia
agressiva. Afirma que vai permitir o envio de
celulares e de dinheiro pelos cubanos-americanos
a Cuba, mas não vai tolerar a falta de
liberdade política na ilha. Vai manter
o embargo a Cuba. Reedita o discurso do “destino
manifesto” que considera os Estados Unidos
como “defensores incansáveis da
democracia” e endereça críticas
a Hugo Chávez e a seu “governo
autoritário” (a quem considera
demagogo e partidário das “falsas
ideologias testadas e fracassadas do passado”).
Envia um recado à Bolívia e à
Venezuela: vai levar adiante o programa antidrogas
andino e apoiar a Colômbia no direito
de atacar terroristas que buscam abrigos seguros
além de suas fronteiras (aspiração
de Uribe, contra as Farc e Chávez).
Quando
o assunto é imigração,
defende uma reforma abrangente da imigração,
segurança da fronteira e leis mais duras
contra os empregadores, que significaria “tirar
da sombra 12 milhões de imigrantes não
autorizados”. Em relação
ao Iraque, sinaliza com um cronograma para retirada
de tropas do Iraque em 16 meses. Em suma, Obama
promete um governo de “mudanças”
em relação ao Governo Bush, sem
alterar o núcleo da economia americana,
adotando um discurso alternativo ao de Bush,
na esteira de seu carisma e na condição
de primeiro candidato negro à presidência
dos Estados Unidos.
Cynthia
McKinney e o projeto de retomada da Reconstrução
nos Estados Unidos
No
bloco das candidaturas alternativas a Obama
e McCain, o Partido Verde lançou Cynthia
McKinney, candidata africana-americana, do estado
da Geórgia. Cynthia foi membro da Câmara
dos Representantes dos Estados Unidos da América
(1993-2003 e 2005-2007) e deixou o Partido Democrata
em setembro de 2007[2]. Do ponto de vista da
luta anti-racista e de construção
de um projeto de transformação
social, ela é o grande diferencial nesta
eleição. Centra o discurso na
luta contra as desigualdades de raça
e classe e aponta como inspiração
para um projeto de transformação
a América Latina, com a Revolução
Cubana e com as conquistas da população
pobre latino-americana com as eleições
de Hugo Chávez, Evo Morales, na Bolívia,
e Rafael Correa, no Equador. Para ela, estas
últimas experiências latino-americanas
têm demonstrado que é possível
votar no sonho, na esperança e ganhar,
e que através do voto mudanças
reais podem ser conquistadas.
Em
entrevista a Amy Goodman[3], em 04 de fevereiro
de 2008, Cynthia afirma que deixou o Partido
Democrata porque os democratas estavam se tornando
iguais aos republicanos. Em 1991, Cynthia criticou
a Guerra do Golfo. Crítica ao governo
Bush, um dos seus últimos atos no Congresso
foi reivindicar o impeachment do presidente
Bush e do vice Dick Cheney (que é democrata).
Cynthia fala para uma grande parte da comunidade
africano-americana que decidiu se retirar do
processo eleitoral, entre outras razões,
pelo descaso em relação ao Katrina.
O que ela quer é trazer essas pessoas
de volta ao processo eleitoral a partir dos
valores partilhados do fim das desigualdades
baseadas em raça e classe.
Pode
tirar votos de Obama na Geórgia, sobretudo,
na comunidade negra. Foi membro da Câmara
dos Representantes dos Estados Unidos da América
pelo Partido Democrata e foi contra a guerra
ao Iraque, quando a guerra tinha apelo popular
e era defendida tanto por democratas quanto
por republicanos. Saiu do Partido Democrata
por considerar que estavam se tornando “republicratas”
, já que pouco ou quase nada os diferencia
dos republicanos. Hoje, como afirma o ativista
negro e ex-Pantera Negra, Mumia Abu-Jamal, Cynthia
é persona non grata de democratas e republicanos[4].
Cynthia
critica as desigualdades sociais e raciais nos
Estados Unidos expressas na mortalidade infantil,
na habitação, na diferença
de renda, no desemprego, no acesso à
saúde e no tratamento dispensado pela
justiça. Denuncia que lá, como
no Brasil, jovens negros são assassinados
por policiais e que, apesar dos negros representarem
12% da população norte-americana,
são 50% dos que não possuem casa.
Denuncia ainda que quase a metade dos homens
negros de 16 a 64 anos estão desempregados
em Nova Iorque[5].
A
candidata do Partido Verde faz parte do Movimento
pela Reconstrução, movimento da
comunidade negra atingida pelo furacão
Katrina que luta pelo direito ao retorno e pela
participação no processo de reconstrução
da região.
O
sonho da Reconstrução
Cynthia
acolheu como plataforma de campanha o Manifesto
do Movimento pela Reconstrução.
A Reconstrução negra, além
de uma referência ao movimento dos atingidos
pelo Katrina, pode ser também uma alusão
ao momento pós-guerra civil americana
que aboliu a escravidão, quando foram
criadas universidades e institutos técnicos
para negros; 14 negros foram eleitos como representantes
federais e 02 para o Senado; aos africano-americanos
foram assegurados direitos políticos
e civis integrais e parcela do poder político
nos estados do sul, através de cargos
eletivos, no judiciário, na polícia;
quando foi construída uma legislação
trabalhista que buscava impedir a demissão
arbitrária e garantia o pagamento pelo
tempo trabalhado. A Reconstrução
teve fim na década de 1870. Neste período,
os partidos democrata e republicano fizeram
um grande acordo “por cima” que
culminou no retrocesso dos avanços e
garantias conquistados no período da
Reconstrução radical. De forma
muito apropriada, Cynthia McKinney, candidata
do Partido Verde (Green Party) e participante
do movimento pela criação do Partido
da Reconstrução, se insere na
disputa eleitoral acionando o legado de luta
dos negros norte-americanos contra as desigualdades
sociais e raciais.
Estão
entre os pontos do programa de Cynthia, emprestados
do Manifesto pela Reconstrução:
1) direito à habitação
como direito humano fundamental; 2) reparação
para os africano-americanos; 3) indenização
a Abu-Jamal e a todos os ativistas políticos
presos ilegalmente no país e a seus familiares;
4) criação de um fundo público
para a educação superior; 5) que
os EUA criem leis para garantir um padrão
de força de trabalho nos EUA e aumentá-lo
fora de lá; 6) uma política de
impostos que onere mais aos ricos e às
grandes corporações; 7) reforma
da imigração e legalização
dos trabalhadores imigrantes; 8) América
Latina: - rever a política antidrogas
norte-americana que criminaliza jovens negros
e latinos e que legitima a intervenção
dos EUA contra protestos sociais em países
como México, Colômbia e Peru; 9)
revogação do NAFTA (North American
Free Trade Agreement – Tratado de Livre
Comércio da América do Norte);
10) retirada pacífica das tropas dos
Estados Unidos de mais de cem países
e fim imediato à guerra do Afeganistão
e do Iraque.
Talvez
por isso Abu-jamal afirme que Cynthia é
que representa a verdadeira mudança para
o povo negro e latino pobre nos Estados Unidos,
porque é a única candidata que
propõe mudanças reais. Em 28/01/2008,
Mumia Abu-Jamal declarou que os candidatos Obama
e McCain são apoiados pelo status quo
das grandes corporações[6].
Em
termos gerais, como já afirmamos, na
disputa eleitoral norte-americana, democratas
que rivalizam e se revezam com os republicanos
na estrutura de poder político nos Estados
Unidos conferem estabilidade à hegemonia
burguesa naquele país. Neste sentido,
a candidatura de Cynthia é a que mais
tem condições de articular a luta
contra o racismo e a dominação
de classe, recolocar na pauta política
as vítimas do Katrina e propor um programa
de mudanças democrático e popular
a todos os norte-americanos.
O
socialista Brian Moore
O
Partido Socialista dos Estados Unidos lançou
Brian Moore à presidência e o africano-americano
Stewart Alexander a vice-presidente. No programa
do partido, estão o fim da guerra ao
Iraque e a retirada das tropas; nacionalização
da indústria do petróleo, farmacêutica,
ferrovias e das indústrias de automóveis;
um programa de guerra à pobreza e enfermidades
mundiais, em especial dos países do terceiro
e quarto mundos; apoio ao protocolo de Kyoto;
extinção da CIA e dissolução
da OTAN; direitos iguais a todos os imigrantes
e reconhecimento de que sua presença
é resultado das políticas econômicas
norte-americanas que geram fome, pobreza e más
condições de trabalho (www.votebrionmoore.
com).
Brian
Moore parece não direcionar suas críticas
a Cynthia e sim ao candidato independente (Ralph
Nader), a Obama e McCain. Evidentemente, existem
diferenças entre Moore e Cynthia: para
alguns, a candidata verde representaria uma
candidatura “liberal” (no sentido
norte-americano do termo), mas o seu programa
está muito mais próximo de uma
plataforma política democrática
e popular.
Alternativa
de verdade
A
candidatura do africano-americano Barack Obama
à presidência dos Estados Unidos,
com chances reais de se eleger e em cima de
um discurso mudancista, parece, para setores
dos movimentos de direitos civis e do movimento
negro, um feito histórico que sinalizará
uma transformação completa das
desigualdades raciais construídas pelo
racismo praticado em países como os Estados
Unidos e o Brasil. Recentemente, uma Plenária
do Movimento Negro Mineiro declarou apoio à
candidatura de Obama. Outros anti-racistas já
declararam apoio, como o ator Milton Gonçalves.
No entanto, a candidatura de Cynthia McKinney
é a que de fato simboliza um compromisso
de transformação e mudanças
radicais na sociedade americana e na política
imperialista do governo estadunidense. A pouca
divulgação e repercussão
das idéias e propostas da candidata do
Movimento Pela Reconstrução, Cynthia
McKinney, cumpre o papel de reforçar
a falsa polarização entre democratas
e republicanos (que, aliás, encontra
analogia no Brasil na polarização
entre PT e PSDB). As diferenças entre
Obama e McKinney representam visões opostas
sobre a sociedade capitalista, o imperialismo,
as utopias caminhantes latino-americanas e a
questão racial. Não obstante ser
africano-americano, Obama faz questão
de não assumir nenhum compromisso público
com os negros e negras dos Estados Unidos. Promete
mudanças, mas não diz como irá
implementá-las e assume compromissos
com as corporações que constituem
o “núcleo duro” da economia
norte-americana. Ao contrário, Cynthia
McKinney representa mudança de verdade
e uma alternativa de esquerda à falsa
polarização democratas versus
republicanos (que, ao final, confluem na “concertação”
republicrata).
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