| Foco
na OMC resulta de pressões do agronegócio
e de imposições eleitorais
Reinaldo Gonçalves
Resoluções tiradas de Doha podem
ter sido consideradas um fracasso para o governo
brasileiro, mas foram uma vitória para
o povo do nosso país.
A
derrota da estratégia do Itamaraty nas
negociações no âmbito da
Organização Mundial do Comércio
(OMC) significa vitória para países
que têm estratégias mais abrangentes
e inteligentes. O fracasso do governo Lula também
implica vitória para o Brasil.
Poucos
dias antes do fracasso da reunião da
OMC, o ministro das Relações Exteriores
do Brasil acusou os representantes dos países
desenvolvidos de algo que tem sido prática
recorrente do governo Lula em geral e do Itamaraty
em particular: uma mentira contada muitas vezes
acaba sendo aceita como verdade. Esta frase
expressa a essência da política
exterior do governo Lula. Muitos ainda acreditam
que esta política defende os interesses
nacionais. Mentira pura. Tomemos o caso das
negociações internacionais de
bens no âmbito da OMC.
O
principal foco da estratégia brasileira
era a eliminação dos subsídios
concedidos nos países desenvolvidos para
a produção local de alimentos.
Não resta dúvida que, caso isto
ocorresse, as grandes empresas do agronegócio
no Brasil aumentariam suas exportações
e, portanto, os lucros destas empresas seriam
ainda mais elevados. Entretanto, há outros
fatos que implicam sérias perdas para
o país.
A
eliminação dos subsídios
agrícolas causará aumento dos
preços internacionais e, portanto, maior
pressão inflacionária em escala
global. Este fenômeno é grave no
atual contexto de inflação crescente
que resulta da elevação dos preços
do petróleo e dos alimentos. A inflação
internacional repercute no Brasil visto que
os produtores brasileiros de commodities também
elevam seus preços no mercado doméstico.
Portanto, o trabalhador brasileiro perde, via
maior inflação, com a eliminação
dos subsídios agrícolas nos Estados
Unidos e na Europa. E, ademais, como corretamente
temem os governos de outros países, a
elevação dos preços internacionais
de alimentos aumentará a fome e a miséria
no mundo. Não é por outra razão
que muitos países em desenvolvimento
não apóiam a posição
brasileira.
A eliminação dos subsídios
terá como contrapartida a redução
das tarifas dos produtos industriais. Portanto,
a competição será maior
e cairão os preços dos manufaturados.
Por um lado, os consumidores brasileiros se
beneficiarão; por outro, haverá
redução de renda e emprego na
indústria doméstica. A perda de
competitividade e produção na
indústria brasileira tende a ser generalizada.
Assim, os preços de exportação
dos produtos agrícolas aumentam, porém
os preços de exportação
dos produtos industriais brasileiros caem ainda
mais. O resultado líquido é a
perda de renda real para o país via termos
de troca.
Estudos
mostram que as negociações na
OMC geram ganhos modestos. No caso do Brasil,
o ganho líquido seria muito pequeno:
entre US$ 251 milhões e US$ 1,1 bilhão.
Para quem acha que isto é muito dinheiro
vale lembrar que o maior banco privado brasileiro
teve lucro líquido de US$ 4,7 bilhões
em 2007. No caso brasileiro os ganhos estariam
concentrados na grande propriedade agrícola.
Trabalhadores, de modo geral, teriam perda de
renda. O capital produtivo na indústria
também perderia renda. Para ilustrar,
considerando as negociações no
setor agrícola, estima-se que haveria
aumento de 13,3% do lucro do agronegócio
e redução de 0,20% do salário
da mão-de-obra qualificada.
Sob
pressão do agronegócio e tendo
em vista o financiamento das campanhas eleitorais,
o governo Lula tem como foco das negociações
na OMC a eliminação dos subsídios
agrícolas. Cabe lembrar que o setor primário-exportador
aumentou sua contribuição para
o financiamento da campanha eleitoral de Lula
de 2,9% em 2002 para 10,4% em 2006. Não
há dúvida que o foco estreito
da política exterior é bom para
o agronegócio e para o governo Lula,
mas é mentira que seja boa para o Brasil.
Ainda bem que Lula foi derrotado em Genebra.
Cabe agradecer à China, Índia
e Argentina e outros países que não
foram capturados por grupos de interesses retrógrados,
que têm políticas exteriores conseqüentes
e estão em plenas trajetórias
de desenvolvimento.
Reinaldo
Gonçalves é professor titular
de Economia Internacional da Universidade Federal
do Rio de Janeiro.
Originalmente publicado em http://www.unisinos.br
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