| Colaboração
do companheiro Plinio de Arruda Sampaio sobre
as idéias de István Mészáros
O
modo de produção capitalista representou,
no passado, um grande avanço em relação
aos modos de produç/ào anteriores.
Mas, no final das contas, esse avanço
historico acabou por mostrar sua face problematica
e destrutiva ao quebrar o laço direto
entre a produçao e sua utilizacao pelas
pessoas, substituindo-o pela relação
com a mercadoria, o que lhe abriu possibilidades
aparentemente ilimitadas de expansão.
O determinante interno do sistema produtivo
do capital - paradoxal e em ultima analise insustentavel
- é que seus produtos transofmrados em
mercfadoria sao valores sem uso para sues proprietarios
e valores de uso para os nao proprietarios.
Consequentemente eles precisam mudar de maos.
Daí porque as merfcadorias precisam realizar-se
como valores antes de se realizarem como valores
de uso.
Esta
contraditoria dinamica interna do sistema, que
submete impiedosamente as necessidades humanas
às alienantes necessidades de expansao
do capital, é o que impede a possibilidade
de um controle geral e racional desse dinâmico
sistema. A total ausencia de restrição
reprodutiva tras consequencias ptencialmente
catastroficas a longo prazo, terminando por
transformar seu anterior poder positivio de
um quase inimaginavel desenvolvimento economico
em devastadora negatividade.
O
que é sistematicamente ignorado - e precisa
ser ignorado em razao de imperativos feitichistas
e dos interesses disfarçados do próprio
sistema capitalista - é o fato inescapavel
de que vivemos em um mundo finito, com limites
objetivos vitais. Por muito tempo na história
humana, inclusive durante os vários séculos
de desenvolvimento capitalista, esses limites
puderam ser - e de fato foram - ignorados com
relativa segurança.
Entretanto
uma vez que esses limites configuram-se claramente,
como devem configurar-se em nossa irreversível
época histórica, nenhum sistema
produtivo irracional e desperdiçador,
independentemente de quão dinamico seja
(e na verdade quanto mais dinamico pior) poderá
escapar das consequencias. Tal sistema pode
apenas desconsidera-los por algum tempo, enquanto
poe de lado e sempre que necessário trata
de suprimir os mais evidentes sinais que prefiguram
um futuro insuwstentavel.
A
necessária consquencia dessa determinaçao
estrutural tendenciosa é o predominio
do valor de trofa sobre o valor de uso. Isso
aontece nao apenas agora na mais absurda e cega
apologética do capitalismo contemporaneo,
mas aconteceu tambem no periodo classico da
política economica burguesa, no tempo
da histórica ascençao do sistema
capitalista.
Pela
regra capitalista a produção sem
limites deve ser buscada a todo custo, assim
como deve ser justificada e recomendada teoricamente.
Buscar essa produção sem limites
é obrigatorio, mesmo que nao haja garantia
alguma de que: l) a necessaria e sustentavel
"troca de mãos" das mercadorias
oferecidas no mercado venha, de fato, a ocorrer
(graças às misteriosamente benevolentes
e mais ainda misteriosamente ïnvisivel
mão"de Adam Smith);
2)
as condiçoes objetivas materiais para
a produção ilimitada - e humanamente
nao limitável, uma vez que separada da
necessidade de uso - possa ser assegurada eternamente,
independentemente do seu impacto destrutivo.
A
capacidade idealizada do mercado para corrigir
o defeito estrutural apontado no tópico
1 acima consiste em um argumento gratuito fundado
em muitos pressupostos arbitrários e
em prescriçoes reguladoras irrealizaveis.
A
realidade incontornavel subjacente ao argumento
da capacidade do mercado para impedir o desastre
ecologifco é um conjunto de relações
de poder refratárias a qualquer controle
tendentes ao monopolio e ao aguçamento
dos antagonismos aos quais o sistema da origem.
Da
mesma maneira, ao grave defeito estrutural de
buscar a ilimitada expansao do capital - idealizando
"crescimento" como um fim em si mesmo
- como é explicitado no ponto 2 acima,
é acrescentada uma igualmente ficticia
desculpa quando é admitida a necessidade
de remediar a situação. O remédio
sugerido para sanar o colapso na insanavel negatividade
do fatal "estado estacionário"
teorizado pela economia política do século
XIX, é simplesmente advogar ingenuamente
uma desejavel distribuição mais
equitativa (e, portanto, menos conflituosa)
sem alterar em nada o sistema produtivo.
Tal proposta - mesmo que pudesse ser implantada,
o que, evidentemente, não é possivel
em razão das determinantes estruturais
da ordem social capitalista - nao conseguiria
solucionar qualquer dos graves problemas de
produção uma vez que suas contradições
insuperáveis surgem do incurável
problema de distribuição. Um dos
principais representantes do pensamento liberal,
John Stuart Mill, é tão realista
quando se preocupa com o futuro estado estacionario
da economia quanto irremediavelmente irrealista
quando propõe evita-lo. Porque Mill só
oferece esperanças vazias ao discutir
esse problema absolutamente insolúvel
no contesto docapital. Ele escreve: "Eu
sinceramente espero que, para o bem da posteridade
os homens aceitem o estado estacionário
antes que a necessidade os obrigue a tanto".
O discurso de Mill, como se vê, não
passa de pregaçao paternalista, porque
ele apenas reconhece, de acordo com o diagnostico
de Malthus, as dificuldades decorrentes do crescimento
populacional enquanto ignora todas as dificuldades
decorrentes das contradiçoes do sistema
de reproduçao do capital. Sua auto complacencia
burguesa é evidente, pois tanto sua análise
quanto suas recomendaçoes sao inconsistentes.
Mill afirma peremptoriamente: "Somente
nos países atrasados o crescimento da
produçao continua sendo um problema importante;
nos mais adiantados, o que se necessita é
uma melhor distribuição, para
o que se torna indispensável um estrito
controle dos nascimentos." Mesmo sua idéia
de "melhor distribuição"é
irremediavelmente irrealista. Porque o que Mill
nao aceita admitir (ou confessar) é que
o aspecto incomparavelmente mais importante
do problema distributivo é a intocável
distribuiçào dos meios de produçao
exclusivamente entre os integrantes da classe
capitalista. É compreensível pois
que, na base da premissa de uma ordem social
de auto serviço, permaneça sempre
um sentimento pqaternalista de superioridade,
segundo o qual nao se pode esperar qualquer
soluçao até que as mentes mais
dotadas consigam educar as outras de modo a
que estas aceitem o controle da natalidade,
que trará como consequencia melhor distribuiçao.
Assim
deve-se descartar qualquer intenção
de mudança nas destrutivas regras estruturais
do metabolismo da ordem social vigente, que
está levando inexoravelmente a sociedade
a um "estado estacionário".
No discurso de Mill, a utopia do milenio capitalista
com seu "estado estacionário sustentável"
se realizará graças aos bons serviços
das "melhores mentes"do pensamento
liberal esclarecido.
E
então, no que se refere às determinaçoes
estruturais da ordem social reprodutiva, tudo
pode permanecer como antes.
Isto
faz algum sentido do ponto de vista do capital,
ainda que se torne insustentável devido
à dramatica evidencia e ao crescente
aprofundamento da crise estrutural. Este otimismo
irrealista nao pode evidentemente ser aceito
por um movimento reformista que se proclame
defensor dos interesses do trabalho. No entretanto,
o reformismo social-democrata, em seus inícios,
inspirou-se nesse otimismo ingênuo e sinceramente
os assumiu (!?)
Consequentemente
nao causa surpresa alguma que, aceitando a lógica
das premissas sociais adotadas, todas emanadas
dos interesses estabelecidos como controladores
imutáveis do metabolismo reprodutivo,
o reformismo social democrata tenha terminado
como terminou, transformando-se do "novo
trabalhismo" e abandonando completamente
qualquer preocupação com qualquer
reforma, ainda que mínina, da ordem social
estabelecida.
Simultaneamente
surgiram na cena histórica, no lugar
do liberalismo genuino, variedades novas, desumanas
e selvagens de neoliberalismo as quais deixaram
no esquecimento antigos remédios sociais
antes recomendados - inclusive as prescrições
paternalistas do antigo credo liberal progressista.
E
como uma amarga ironia do desenvolvimento histórico
contemporano, o tipo "novo trabalhismo"
(movimentos sociais trabalhistas instalados
nao apenas na Inglaterra como em toda parte
do mundo desenvolvido ou mesmo nao tao desenvolvido)
nao hesitou em identificar-se, sem qualquer
pudor, com a fase agressiva neoliberal dos apologetas
do capital. Esta capitulação marcou
definitivamente o fim da via reformista que,
aliás, era um caminho cego desde o inicio.
2.
A
fim de criar uma ordem social reprodutiva economicamente
viavel e também sustentável a
longo prazo, é necessário alterar
radicalmente as determinaçòes
internas da ordem estabelecida, que impõem
a submissao impiedosa das necessidades humanas
e do uso das coisas às exigencias alienantes
da expansão do capital. Isto supõe
relegar ao passado e para sempre a absurda precondiçào
do sistema produtivo atual, segundo o qual os
valores de uso, em razão de determinações
previas e totalmente iniquas do direito de propriedade,
têm de ser separados daqueles que os produzem
de modo a propiciar a auto realizaçao
do capital. Trata-se de uma legitimação
circular e arbitrária. Nesse esquema,
a economia como maneira de poupar recursos que
são inelutavelmente finitos, é
algo que não pode ser admitido como principio
vital e orientador. Em vez disso, o mais irresponsavel
desperdício impera na ordem socio economica
e na correspondente ordem política -
apesar de sua mitologia da eficiencia insuperável.
A bem da verdade, o tipo de eficiência
assim louvada é a auto comprometedora
capacidade do sistema de empurrar cegamente
para diante tudo o que lhe é conflitivo
e adverso, nao importando as consequencias para
o conjunto da sociedade. É comprensivel
que as propaladas fantasias do "socialismo
de mercado" tenham sido o fiasco do colapso
humilhante, por terem aceito os insuperáveis
determinantes do capitalismo.
A
concepção da economia atualmente
dominante, incapaz de colocar limites no mais
atroz desperdício - hoje em escala planetária
- so pode operar na base de tautologias arbitrariamente
pre-fabricadas e logo descartadas, assim como
falsos entraves e pseudo alternativas para justificar
o injustificável. Uma dessas gritantes
- e perigosamente infecciosas tautologias- é
a definição arbitrária
de produtividade como crescimento e de crescimento
como produtividade, quando ambos termos deveriam
ser avaliados separadamente em uma análise
histórica qualitativamente sustentavel.
É
claro que a razão de uma tautologia falaciosa
ser preferida a uma afirmação
teórica e prática correta decorre
do desejo de fazer com que a identificação
arbitrária desses dois termos-chave do
sistema capitalista, faça uma ordem social
reprodutiva problematica e, em ultima analise,
auto-destrutiva parecer viável e mesmo
inquestionável.
Ao
mesmo tempo a identidade tautologica arbitrariamente
"decretada" entre crescimento e produtividade
é sustentada pela falsa alternativa -
igualmente arbitrária - entre crescimento
e nao crescimento. Ademais, "nao crescimento"é
automaticamente desqualificado em favor do "crescimento
capitalista". Define-se esse crecimento
de modo feitichista (porque desse modo abre-se
caminho para pressupo-lo eterno) como sinônimo
de "crescimento em sí", quando
nada mais é do que a forma abstrata e
genérica de "reprodução
ampliada do capital", enquanto pré-condição
para satisfaze as necessidades e o uso humano.
É
sobre esse aspecto que se revela o incorrigivel
divorcio entre o crescimento capitalista e as
necessidas e o uso - na verdade a mais devastadora
e destrutiva oposição às
necessidades humanas (!?)
Uma
vez que se descarte a mistificação
feitichista e os postulados arbitrários
que embasam a falsa identidade entre "crescimento"e
"produtividade", torna-se muito claro
o tipo de crescimento postulado e pretensamente
isento de qualquer crítica, nao é,
de modo algum, relacionado organicamente às
necessidades humanas. A única relação
que é feita e defendida a todo o custo
no universo social do capital é a falsa
identidade entre a - aprioristicamente suposta
- expansão do capital e o correspondente
(mas, na verdade, suposto) "crescimento",
independentemente dos danos impostos à
natureza e à humanidade pelo mais destrutivo
tipo de crescimento. Porque, para o capital,
a única preocupação real
é a sua reprodução ampliada,
mesmo que ela implique a destruição
da humanidade.
Nesse
contexto, até mais letal tipo de crescimento
canceroso deve preponderar sobre a necessidade
e o uso humano na improvavel hipotese de que
a necessidade humana seja de algum modo mencionada.
E quando os apologistas do capitalismo se dignam
considerar os "limites do crescimento",
como fez o "Club de Roma" na propagandeada
obra de apologia do sistema, editada em 1970,
o objetivo real é a perpetuação
das graves desigualdades existentes no mundo,
mediante um ficticio (e quixotesco) congelamento
da produção capitalista em nível
totalmente insustentavel, acusando o crescimento
demográfico ( como se tornou costumeiro
na economia burguesa desde Malthus) pelos problemas
existentes.
Comparado
a esse tao insensivel quao hipócrita
argumento, que finge preocupação
com a situaçào perigosa para a
humanidade, a citação de Mill
anteriormente feita, em defesa da distribuição
mais equitativa da renda deve ser considerada
uma paradigma do iluminismo radical. A falsa
e interesseira alternativa entre "crescimento"
e "não crescimento" fica evidente
se considerarmos o que seria o inevitável
impacto do "não crescimento"diante
da enorme desigualdade e sofrimento das pessoas
na ordem social capitalista. O "nao crescimento"representaria
a condenação permanente da imensa
maioria da humanidade
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