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SR. MARCELO FREIXO - Sr. Presidente, Srs. Deputados,
infelizmente venho a este plenário falar
de mais uma tragédia carioca. É
impressionante o que acontece neste Rio de Janeiro,
que está longe de ser uma cidade maravilhosa,
mas é um maravilhoso cenário para
uma cidade que talvez precise de um comboio
de mudanças, Deputado Paulo Ramos, não
só de um caminhão. Mas tem uma
coisa que sei que a gente não precisa:
é de cimento. De cimento a população
do Rio não precisa, porque imobiliza,
é feio e racha!
É inaceitável o que aconteceu
no Morro da Providência - e é muito
sintomático que tenha acontecido no Morro
da Providência. É bom que se diga
- o resgate histórico sempre faz parte
- que o Morro da Providência, nos registros
oficiais, representa a primeira favela do Rio
de Janeiro, tem mais de cem anos e foi consolidada
com os soldados do próprio Exército
- ironia do destino - que guerrearam em Canudos.
O mesmo exército que, naquela época,
comandado em uma das incursões pelo Cel.
Moreira César, que acabou morrendo em
Canudos, não tolerava que camponeses
pobres pudessem vida digna e com autonomia no
interior, desafiando poder do latifúndio.
O prêmio para os soldados que guerrearam
em Canudos, e já naquela época
soldados pobres matando camponeses pobres, camponeses
pobres matando soldando pobres, tudo para manter
a ordem social, porque a manutenção
da ordem social é sempre a manutenção
da ordem de classe, naquele momento, os soldados
que retornavam ao Rio de Janeiro foram morar
no Morro da Providência e traziam do arraial
de Canudos ou do sertão da Bahia uma
planta chamada favela, daí o nome dessa
moradia e desse morro como o "morro da
favela". Mais de 100 anos depois, o Exército,
sendo utilizado da forma mais espúria
e inaceitável política e eleitoralmente,
comete uma atrocidade como essa.
É verdade que não se pode dizer
que foi o Exército; evidente que não
foi uma ordem dada pelo Comando Militar do Leste,
mas foram os militares, fardados, ocupando aquela
região, que fizerem isso. O Exército
tem responsabilidade sim, tem que responder
por isso. Como tem imensa responsabilidade o
Governo Federal, como tem inteira responsabilidade
o Senador Crivella.
É um conjunto de absurdos, Deputado Paulo
Ramos, é um conjunto de absurdos! Primeiro,
cabe lembrar, a velha história das emendas
individuais. Emendas que às vezes são
tão individuais que atendem a interesses
privados e não públicos, atendem
a interesses eleitoreiros, utilizando-se de
recurso público do orçamento federal,
12 milhões aprovados em 2007 para serem
implementados em uma comunidade do Rio de Janeiro,
cidade na qual o Senador que aprova a tal emenda
é candidato a prefeito. Olha, se isso
é legal, eu não vou discutir.
Mas discuto se isso é moral, discuto
se isso é ético. É inaceitável,
no campo da ética, o instrumento eleitoreiro
e privado do orçamento que se faz através
das emendas individuais. É inaceitável!
Isso precisa ser denunciado, porque não
é só o Deputado Crivella que faz
isso, é rotineiro. E o Governo Federal
utiliza-se das emendas individuais para negociar
voto no Congresso, para ganhar votação
importante, usando o orçamento como instrumento
de compra de deputados. Isso é corriqueiro.
O Deputado Paulo Ramos, que foi Deputado Federal,
sabe disso muito melhor do que eu.
O que acontece agora, e que se desnudou, é
que essas emendas individuais, uma delas resultante
desse projeto Cimento Social, gera a possibilidade
da renovação de casas. Moradores
daquela comunidade já denunciavam que
as casas reformadas, Deputado, eram casas que
estavam estrategicamente colocadas à
mostra de quem morava fora da comunidade, num
claro plano de visibilidade da obra e não
de uma obra estrutural. Obra que não
foi debatida na comunidade. Outra denúncia
gravíssima que fere o nosso princípio
de estado laico, tão difícil de
ser debatido nesta Casa, é de que boa
parte das pessoas convidadas para o trabalho
eram pessoas vinculadas à igreja do Bispo,
da igreja do Senador Crivella. Ou seja, um mecanismo
de orçamento público sendo utilizado
por meio privado e de fortalecimento da sua
religião e da sua igreja, que é
mecanismo eleitoral permanente do Senador Crivella.
Pois não, Deputado Paulo Ramos, concedo
um aparte a V.Exa.
O SR. PAULO RAMOS - Eu tratei, no Expediente
Inicial, desse mesmo tema. E registrei que o
objetivo era única e exclusivamente eleitoreiro,
a exemplo do outro projeto, lá em Irecê,
na Bahia, que serviu de alavanca para a eleição
ao Senado. Ninguém nunca mais ouviu falar
daquele projeto. E também agora, certamente,
na campanha eleitoral, não tivesse acontecido
essa desgraça enlutando famílias
já sofridas e ainda trazendo mais uma
mácula para o Exército Brasileiro.
Não sei quais as explicações
que serão dadas pelo Presidente da República
por esse desvio de função do Exército
Brasileiro. Não sei. E não sei
quais as explicações que serão
dadas pelo próprio senador, que já
se utilizou de recursos do Senado para fazer
uma mobilização na data da inauguração
de uma réplica da Cidade de Jerusalém.
Agora vê que não poderá
fazer uso de mais uma mentira, de mais uma manipulação,
de mais um desvio para a campanha eleitoral.
Vamos ver - como falei - se o cimento, que ele
diz social, pode servir, pelo menos, para lacrar
a sepultura política do Senador Crivella.
O SR. MARCELO FREIXO - Deputado Paulo Ramos,
a barbárie completa não fica só
na emenda, chega no próprio desvio de
função do Exército. Tem
razão V. Exa.
É bom lembrar que o vice-presidente é
do mesmo partido que o Senador Crivella. Estranhamente,
o Exército é colocado para garantir
segurança de uma obra, feita por uma
empresa privada, com caráter eminentemente
eleitoreiro. Não bastasse, não
é função do Exército
fazer policiamento ostensivo.
Infelizmente, o Rio de Janeiro, recentemente,
tem aprendido com as tragédias, tem aprendido
com as tragédias. Muitos tinham um olhar
simpático sobre as milícias ou,
pelo menos, silenciavam, eram coniventes, alguns
até as defendiam. Foi necessária
a barbaridade pela qual passou os repórteres
do jornal O Dia para alguns falarem: "É,
realmente não dá!" Muitos
sempre defenderam, Deputado Paulo Ramos, o Exército
nas ruas como instrumento de redução
de criminalidade. Foi preciso ocorrer essa barbaridade
no Morro da Providência para as pessoas
repensarem: "Não, o Exército
não tem preparo para isso; o Exército
não tem essa função institucional,
não tem essa função constitucional."
Porque a lógica de defender o Exército
nas favelas é a lógica da guerra,
na qual o governador do Estado é mestre,
insiste em tratar a Segurança Pública
como caso de Polícia, insiste no discurso
irresponsável da guerra, insiste na idéia
de que é matar ou morre.
E aí, Deputado Paulo Ramos, lanço
um desafio que é social: o que aconteceu
no Morro da Providência é o que
vem acontecendo sistematicamente em um conjunto
enorme de favelas, porque não foi esse
grupo de militares que inventou essa história
de vender gente e vender vidas de um morro para
outro de uma facção rival. Isto
já existe no Rio de Janeiro feito por
um pedaço podre que precisa ser enfrentado
dentro da Polícia Militar e dentro da
Polícia Civil. Não foram os militares
que inventaram. Isto já existe. É
lamentável, é inaceitável!
Agora, isto é fruto de uma política
de segurança, isto é fruto de
um entendimento de segurança no qual
o governador tem inteira responsabilidade, que
diz que, mais do que um direito, é quase
o dever dos agentes do Estado operarem com a
morte, com a ação letal nas áreas
pobres, porque se o Estado dá o direito
de matar um agente público, dá
também o direito de negociar sua vida,
dá também o direito de pegar um
pobre jovem, negro, favelado e dizer: "Eu
poderia matá-lo." Os agentes do
Exército poderiam matá-los, mas
não, não mataram, venderam suas
vidas para outro, porque se sentem no direito
completo de fazerem isso.
O SR. PAULO RAMOS - Aparte duplo, Deputado Marcelo
Freixo.
O SR. MARCELO FREIXO - Concedo o aparte duplo.
O SR. PAULO RAMOS - Em decorrência dessa
política criminosa, também os
policiais estão morrendo. Sei que V.
Exa. defende esta posição, porque
estão jogando pobres contra pobres: os
policiais são oriundos das comunidades
onde são levados a reprimir e as suas
famílias continuam morando nessas comunidades.
E em decorrência dessa política
criminosa do Governador Sérgio Cabral,
a Polícia do Rio é reconhecida
como a que mais mata, mas é também
a que mais morre.
O SR. MARCELO FREIXO - Exatamente. Deputado
João Pedro.
O SR. JOÃO PEDRO - Deputado Marcelo Freixo,
só para agregar à fala de V.Exa.,
com a qual concordo, sublinho e subscrevo, quero
dizer que esse convênio do Governo Federal
com o Exército era executado pela Prefeitura
do Rio de Janeiro, como determinam as normas
e as regras.
Os recursos vinham para a Prefeitura do Rio
de Janeiro e daí era executado. De uma
hora para outra, o Governo Federal e o Exército
informam à Prefeitura que a Prefeitura
não cumpria mais esse papel, e sim o
Exército Brasileiro. Vê-se o desvio,
uma questão imposta pelo Governo Federal,
que tirou da Prefeitura do Rio de Janeiro a
sua atribuição, normal a qualquer
município deste país, e passou
para o Exército.
Só corroborando e acrescentando às
palavras de V.Exa.
Obrigado.
O SR. MARCELO FREIXO - Agradeço e, na
verdade, só fortalece a denúncia
do quanto é eleitoreira e atende a interesses
absolutamente individuais e partidários,
com recursos públicos.
Para concluir, quero dizer que essa tragédia
completa ainda tem um último fator, Deputado
Chiquinho da Mangueira, que diz respeito à
forma de esse assunto ser abordado por alguns
veículos de comunicação.
Há algum delicado grau de perversidade
quando, por exemplo, em alguns noticiários,
aparece a informação de que um
dos jovens tinha passagem pela polícia.
Qual a diferença que faz? Por que destacar
isso? Não lembro de ter visto o grau
de escolaridade, não lembro de ter visto
se eles tinham ou não plano de saúde,
não lembro de ter visto qualquer outra
informação que não tivesse
uma relação direta com isso. Só
se destaca que um deles tinha passagem pela
polícia.
Ora, e se os três tivessem passagem pela
polícia, tal atitude seria justificada,
seria justificável, seria permitida,
seria menos grave? Esse processo perverso de
criminalização da pobreza precisa
acabar. Precisa acabar!
Não foi um auto de resistência.
Essas pessoas foram detidas, foram levadas para
o quartel, foram retiradas do quartel e vendidas
para uma facção rival do morro
em que moram, por agentes públicos.
Não importa quem eram essas pessoas.
Tal atitude de um agente do Estado não
é menos ou mais grave, dependendo da
vítima do Estado. Esse entendimento de
escala de direito e de cidadania precisa terminar,
Deputado, porque reduzimos e determinamos grau
de dignidade diferenciado para determinados
setores da sociedade. É isso que está
sendo feito. Isso é inaceitável.
Qual é a relevância dessa informação?
Por quê? Porque, quem sabe, ele não
tinha alguma culpa, ele não merecia passar
por isso? É isso o que vão defender?
Não. Não têm coragem, mas
deixam embutida a idéia de que um deles
tinha passagem pela polícia. É
inaceitável.
Estamos falando de agentes públicos que,
de forma indevida, ocuparam aquele morro; que
viabilizaram seus interesses privados com recursos
públicos. E cometeram crimes inaceitáveis.
O Exército precisa responder a isso.
O Senador Crivella precisa vir a público
falar sobre isso. E espero que esta Casa também
acompanhe. Falei com o Deputado Alessandro Molon
porque considero que a Comissão de Defesa
dos Direitos Humanos e Cidadania tem que estar
convocada em caráter permanente, fazendo
Audiência Pública, o que me parece
que vai acontecer na semana que vem, e acompanhar
cada passo dessa investigação,
acompanhar cada momento dessa investigação,
acompanhar de perto tudo o que vai ser feito
sobre esse caso do Morro da Providência,
que é emblemático.
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