| Se
a gente que é pombo não fala...
Wall Street é que não vai falar.
Um grande pensador disse certa vez que a história
se repete pelo menos uma vez, sendo que da primeira
ela ocorre como tragédia e a segunda
como farsa. Pois bem, estamos diante de um fato
que confirma a assertiva da tese. Cabe ressaltar
que a tragédia e a farsa já ocorreram...
O que virá agora?
A
quebra de um dos maiores bancos estadunidenses,
que veio a público no dia 15 de setembro,
deve fazer dessa data um marco histórico
no século XXI, haja vista que no próximo
período assistiremos a um aprofundamento
da crise. Digo isso, por conta de que esse processo
já estava disparado desde 2006. Todos,
do governo à grande mídia, em
nenhum momento prestaram os devidos esclarecimentos
sobre a crise que a economia estadunidense (desculpe
a redundância, mas trata-se da maior economia
do planeta, ou seja, o centro nevrálgico
do sistema) está envolta e suas conseqüências
para o resto do planeta. Pelo contrário,
tanto um quanto o outro tentaram, e continuam
tentando, quando não ludibriar, pelo
menos omitir a gravidade da crise que o sistema
capitalista, gerou.
Alguns
anos atrás, um professor ganhou notoriedade
ao afirmar que a história havia chegado
ao fim, que o capitalismo tinha triunfado e
estabelecido hegemonia no planeta. Como diz
um amigo: “dobre a língua”.
A crise que está colocada é uma
ameaça concreta ao sistema capitalista.
Nada garante que os socorros disponibilizados
pelos governos salvarão esse enfermo
agonizante. Somente o pacote do governo dos
EUA prevê a ajuda de 700 bilhões
de dólares, fora os outros países
do G7.
Aqui
se percebe quão profunda é essa
crise, pois atinge, para além da economia,
a ideologia que sustenta o sistema. Imaginem
se houvesse nos EUA um grande movimento popular
reivindicando acesso gratuito às universidades,
geração de emprego e auxílio
desemprego e garantia de moradia para todos
(sic). Imaginem que tal movimento exigisse do
governo uma ajuda de 50% do valor que vai para
aos socorros aos bancos. Garanto que todos esses
PhDs da economia mundial – os nossos então
nem se fala – gritariam que tal ingerência
nos mercados pelo governo é inaceitável,
que o governo não tem o direito de dispor
dos recursos públicos onerando ainda
mais os contribuintes e tantos outros argumentos
que eles são capazes de criar para defender
o lucro acima da vida. Fato é que todos
eles estão dizendo que os governos têm
mais é que salvar os investidores do
apetite voraz dos investidores.
Todo
aquele discurso que pregava o Estado mínimo,
que defendia a privatização –
das indústrias de base, da saúde,
da educação, da telefonia, das
estradas... dos bancos (sic) – são,
daqueles mesmos que criticavam os defensores
do controle estatal de esferas estratégicas,
agora aplaudem de pé a intervenção
do Estado na economia. A política de
estatização que assistimos na
Venezuela e na Bolívia (com objetivos
bem diferentes dos atuais), tão criticada
agora está sendo feita por vários
governos para socorrer o capital.
A
gravidade da crise exige nossa maior atenção
para a questão militar. Historicamente,
em momentos de crise, os governos sempre utilizam
do aparato bélico para diminuir os efeitos
econômicos e ou políticos da crise.
Um movimento separatista numa remota região
da Ásia ou da América do Sul pode
ser utilizado como estopim para ações
mais extremadas e de desdobramentos incertos
– um envia navios de guerra para o mar
Negro, outro para a costa sul-americana...
Tudo
isso acontecendo e o governo brasileiro insiste
em afirmar que nossa economia está preparada
para resistir a mais essa crise. Um país
que tem sua economia baseada na exportação
de produtos primários - e pretende converter
o país em um grande canavial (está
vendo como é verdade que a história
se repete e não vai ter pré-sal
que nos salve) – será profundamente
atingido pela crise. Por mais dinheiro que os
bancos injetem não conseguirão
saciar o apetite dos especuladores e será
inevitável: inflação, recessão
e desemprego. Isso vai ser duro no centro do
capital; e na periferia, como sempre, será
muito pior.
Devemos
nos preparar para esclarecer os trabalhadores
quando o desemprego, fome e miséria se
abater sobre nós. Temos que ter condições
de demonstrar que a barbárie é
para onde ruma o capitalismo, que não
há saída para a nossa classe dentro
desse sistema e que os custos da loteria especulativa
quem paga são os trabalhadores, bem como
nunca desfrutamos e nem desfrutaremos dos lucros
gerados na produção, enfim, é
chegada a hora de darmos o passo histórico:
o momento da superação do capitalismo.
A História não acabou, a humanidade
não está fadada a barbárie.
Construiremos uma nova sociedade justa, igualitária
e solidária.
Outro
fato que a história nos ensina e que
teremos de manter muita atenção
é a saída do “salvador da
pátria”. Em vários momentos
de crise criaram a figura do líder que
salva a nação, o povo. Acabam
levando os trabalhadores para esse engodo de
restabelecer a ordem. E na verdade, invariavelmente,
instala-se um governo autoritário que
restringe as liberdades – principalmente
de organização e mobilização
dos trabalhadores. È oportuno lembrar
que no Brasil já existe um debate sobre
o terceiro mandato.
O
momento histórico é extremamente
propício para superarmos os debates corporativos.
Para uma intervenção efetiva nesse
processo temos que ler o todo. Nenhuma categoria
estará bem no próximo período
ou conseguirá conquistas se não
for num movimento unitário. A crise recairá
sobre todos e não nos resta alternativa
a não ser reagir enquanto classe.
EDERALDO BATISTA
É professor de História da Rede
Estadual de Ensino, Bacharel em Sociologia,
Membro da Executiva Estadual da APEOESP e Presidente
do PSOL de Guarulhos.
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